O pênalti de Messi é um esculacho no politicamente correto

Facebook Twitter Google+ LinkedIn WhatsApp

O assunto do mundo esportivo nos últimos dias foi a audaciosa cobrança de pênalti protagonizada por Messi e Suárez na goleada de 6 a 1 do Barcelona sobre o Celta. A jogada está bem longe de ser novidade. Todos, pelo menos os mais velhos, devem lembrar da cobrança mais famosa do gênero feita pelo holandês Johan Cruyff, em 1982, oferecendo a Jasper Olsen a oportunidade de marcar e este devolvendo a Cruyff que empurrou para as redes. O primeiro registro de pênalti em dois toques data de 1957, no jogo entre Bélgica e Islândia, quando o atacante Rik Coppens rolou a bola para seu compatriota Andre Piters que também, a exemplo de Olsen, devolveu para que este marcasse.

A jogada reproduzida por Messi, além de incontestável beleza estética, daquelas de guardar o canhoto do ingresso na carteira (até esse pequeno romantismo foi substituído pelos cartões magnéticos), nos remete a uma importante reflexão: Por que não há mais lances como esse no futebol?

Acredito que um dos motivos seja a contaminação de nossa sociedade pelo o que o filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé chama de praga do politicamente correto. Essa praga, também a considero assim, transforma tudo em senso comum, demonizando o diferente. Estabelece um padrão de comportamento social em que a regra é pisar em ovos para não ferir suscetibilidades. Tudo é ofensivo, tudo desagrada, não se restringindo apenas ao campo das opiniões, mas influenciando comportamentos e atitudes. Quando não agrada, a reação imediata é desqualificar. Há quem tenha ressaltado mais a irregularidade da jogada (Suárez teria invadido a área) do que a beleza e a coragem do lance em si. Num jogo de 6 a 1, num lance que atropela o status quo, quem liga para isso?

Me lembro de um Gre-Nal em 1986 no velho Olímpico Monumental, quando Renato, lançado por Osvaldo, corre rente a linha lateral, pelo lado da torcida vermelha, mas a bola sai pela linha de fundo. Na volta, alguém, provavelmente do lado vermelho, arremessa uma bergamota no ponteiro. Renato, ligeiro que era, tanto no campo quanto no ímpeto, não titubeou, desviou do bólido frutífero que passou a centímetros de sua orelha, catou-o no chão e, descascando-o a passos lentos, degustou a fruta em frente à torcida colorada, agradecendo com o polegar. Essa imagem ficou gravada na minha memória de menino. Renato podia. Era gênio. Assim como Cruyff e Messi. Mas se fosse nos tempos atuais os servidores de Mark Zuckerberg explodiriam de tantas críticas pautadas pelo senso comum.

Eram outros tempos. Tempos nos quais a genialidade ainda não havia sido reprimida pelo rendimento. O futebol era a coisa mais importante dentre as menos importantes. Tempos em que jogadores eram apenas homens medindo suas habilidades físicas e intelectuais, tendo a bola como instrumento e a torcida como moldura. Tempos em que os gênios podiam ser gênios, sem receio de ofender ou de humilhar seus oponentes.

Vivemos sobre a tirania do politicamente correto que estabelece como padrão o mediano, sem lugar para a genialidade, para o diferente, apesar de toda a luta, que também faz parte da mesma cartilha, de aceitação das diferenças. Esse pensamento ou comportamento está tão arraigado na sociedade que invadiu as quatro linhas, interferindo no talento natural do jogador, na sua intuição.

O pênalti batido por Messi/Suárez (deveria ter ido assim para a súmula) é mais que uma bela jogada. É um tapa na cara da sociedade contemporânea moribunda, já corroída pela praga do politicamente correto.

Posts Relacionados

1 Comment

  1. João Garcia
    11 de março de 2016 at 15:58 Reply

    Seja benvindo MAURO,tua contribuição é valiosa e logo na estreia mata a pau com essa coluna
    .Um abraço
    Garcia

Leave a Reply

%d blogueiros gostam disto: