Futebol, replay e seus temperos

O novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, eleito no último dia 26, em reunião do Internacional Board (IFAB), aprovou o uso experimental do replay para ajudar os árbitros na tomada de decisão em alguns tipos específicos de lances. O experimento terá início no segundo semestre de 2016, na temporada europeia em competições ainda a definir. A utilização do recurso estará condicionada a quatro situações: para determinar se um gol foi marcado, caso de expulsão, marcação de pênalti e para identificar um determinado jogador. Caberá ao árbitro solicitar o replay do lance sempre que tiver dúvida durante o tempo regulamentar das partidas.

Há quem defenda que a medida vai acabar com o “tempero” do futebol. Sua imprevisibilidade e subjetividade que, segundo muitos, o torna apaixonante, serão restringidas pela novidade. Os defensores do replay argumentam que um esporte com a capacidade de movimentar nababescas somas ao redor do mundo não pode ficar na mão do acaso. Ambos apresentam argumentos justos, então analisemos.

Teremos dois níveis de arbitragem. Uma primária, aplicada pelo árbitro principal e fruto da observação direta da jogada. Tem como característica delimitadora a condição humana. Utiliza como parâmetro percepções calcadas no sentimento, procurando em uma fração de segundo, numa vasta base de dados de vivências, parâmetros que permitam o entendimento da jogada e posterior julgamento das ações. Apenas esta é capaz de captar a principal variável dessa equação: a intenção.

A outra, secundária, de características tecnológicas não inerentes aos humanos, embora tenhamos um humano analisando os dados. É expandida, onipresente e multiperspectiva.

O impacto maior será na divisão de responsabilidades na interpretação dos lances capitais entre o árbitro principal e o vídeo-árbitro (como defini a nova função). Solicitando auxílio, o árbitro principal assume que a jogada lhe suscita dúvida. Ficará a cargo do vídeo-árbitro interpretar a jogada a seu critério e informar ao colega o resultado de sua interpretação. A variável subjetiva permanece na equação. Mas será que o canal de comunicação entre árbitro principal e vídeo-árbitro terá duas vias? Poderá o vídeo-árbitro informar ao árbitro sem que seja solicitado por este? Será que não estaremos institucionalizando a reclamação exacerbada apenas para que haja tempo hábil de análise pelo vídeo-árbitro?

Entendo por “se o gol foi marcado” que o recurso será utilizado para dirimir exclusivamente dúvidas sobre o transpasso da bola a linha do gol, isto é, o lance pós último toque. Não funcionaria, por exemplo, para o “La mano de Dios”, lance histórico protagonizado por Diego Maradona, na Copa do México, em 1986, quando ao pular com o inglês Peter Shilton desviou a bola com um tapinha de mão esquerda. Menos ainda para a mão de Thierry Henry no jogo que desclassificou a Irlanda e classificou a França para a Copa da África do Sul, no episódio que ficou conhecido como Mão da Gália.

Nos lances de expulsão e pênalti caberá ao árbitro a interpretação primeira do lance, porém, o recurso do vídeo-árbitro poderá interferir na sua confiança, na sua capacidade de decisão, gerando uma crise de insegurança.

A introdução do replay no futebol neste formato proposto pela Internacional Board exige uma reciclagem de árbitros, jogadores, torcedores e todos os agentes envolvidos no futebol sob pena de haver uma descaracterização do esporte como o conhecemos.

E o impedimento? Por que ficou de fora?

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