Quero ser surpreendida

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É da minha natureza ver as coisas sempre como evoluindo, no sentido de ir para a frente. Creio que uma crise da proporção da nossa, nesses tempos de Brasil escancaradamente dominado pelos mesmos argumentos e movimentos que já vi em outras ocasiões de crise aberta, pode ser sim uma oportunidade de andar para a frente. Para isso, é preciso que seja conquistado aquilo que não depende de nós, pessoas que se juntaram em milhões para dizer “Xô Corrupção, Fora PT”, e sim depende de outros juntados no Congresso Nacional, no Judiciário, na organizações como a OAB e as federações de empresários, nos grupos independentes, na mídia livre, nas redes sociais. O processo de mudança está a caminho, quem for a favor do status quo, ou quem não se agregar a este processo de mudança, deverá responder pelo que vem depois, e tanto melhor quanto mais bem sucedido o que vem depois nesse imenso consenso de que é preciso mudar. Temos a chance, o processo está crescendo, tem rumo, está andando bem.

Mas, e tem sempre um “mas”, vejo esse corroído status quo tão entranhado dos males que geram a crise – corrupção, sistema político-eleitoral inconsistente com a democracia maior, pequenos interesses difusos buscando seu lugar ao sol da fama e do dinheiro, grandes interesses que pouco se importam com o que é público – que não vejo liderança capaz de conduzir essa transição. Conduzir essa transição requer experiência, visão, liderança fora dos escaninhos do toma-lá-dá-cá, capacidade de agregação. Procuro, me aflijo, mas não vejo. Não sei se teremos tempo até que uma liderança se faça e seja a voz com poder de agir dos milhões que enxergam o país indo para trás, perdendo conquistas importantes que tivemos depois da “década perdida”, indo na direção de algo que conhecemos e que perdeu na evolução do século XX – o socialismo real travestido de governos populistas tipo Venezuela e, perigosamente, Brasil. Um Tancredo que não morra no início da jornada. Não é possível ver sem ficar aflita artistas, jovens e líderes vestindo a camiseta de Guevara, o mesmo dos anos 60!, seu poster nos botecos, nas cenas de novela da Globo, e nas agências de publicidade. Ou ver baba-ovos visitando Cuba como se o mundo não tivesse mudado, como se ela fosse o sonho da revolução dos mesmos anos 60, que ganharam o continente e conduziram milhares de jovens ao sacrifício via luta armada, enquanto a guerra mesma era entre EUA e URSS.

Os que estão em seus postos de poder e nas instituições criadas para um mundo de paz façam a sua parte. Substituam pela organização em suas instituições e a capacidade de construir um consenso entre elas a falta de um líder já definido que fale afinado em sintonia com a voz das ruas e com o poder de fazer a mudança. Melhor ser conduzida pelo processo do que ser frustada pela falta disso. Quero ser surpreendida. Está perto de poder ser isso.

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