Os fundamentos do grande desastre

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Vemos repetidamente as pessoas dizerem que é muito difícil explicar ao mundo o que está acontecendo no Brasil. O processo de impeachment, e os escândalos diários incluindo o nome das maiores lideranças políticas no poder como parte da corrupção conduzida pelo PT no poder, são realmente “coisa nossa”. Há muito se afirma que a cultura moldada em alguns séculos de colônia-e-corte explica porque não demos ainda conserto nisso tudo, porque não fizemos as mudanças necessárias para galgar até o degrau de “sociedade democrática e desenvolvida”. Se ainda não conseguimos chegar nesse degrau é porque as estruturas e as instituições ainda representam uma realidade que não honra e nem alegra: são representações de um país injusto, e que reagem furiosamente quando se tenta fazer esse conserto, reduzir mordomias e privilégios, e ultimar as reformas necessárias para que as coisas funcionem de um modo eficiente e justo.

Exemplos que mostrem esse país injusto são abundantes. Vou citar apenas uma estatística que retrate essa realidade: gasta-se com 990 mil aposentados e pensionistas “cidadãos de primeira classe” o mesmo que se gasta com 36 milhões de aposentados e pensionistas “cidadãos de segunda classe”. Sim, esta é conta feita com gastos da previdência de dois regimes: o geral, o dos 36 milhões pessoas, o regime do INSS; e o dos servidores públicos, o de 990 mil pessoas. Para o regime geral as regras resumem o que essas pessoas tem que fazer: trabalhe décadas sem estabilidade garantida e contribua para se aposentar até conquistar o direito com idade mínima e teto de remuneração. Depois, anualmente o reajuste será decidido pelo governo de plantão, e não precisa acompanhar a inflação!

Para o regime estatutário, o dos servidores públicos, que tem estabilidade garantida e aposentadoria pelo salário integral, diversas licenças especiais, e mais uma série inacreditável de benefícios, o reajuste dos da ativa e dos inativos é o mesmo.

É muito difícil explicar lá fora como é o processo de impeachment, mas também é muito difícil explicar como ainda não se sublevaram em revoluções sangrentas os cidadãos que assim financiam os do andar de cima. O sistema duplo de previdência é injusto. Muito injusto. Divide a sociedade em castas. Várias outras estruturas e comportamento das instituições fechadas repetem essa relação injusta. E qualquer tentativa de mudança dá no muro impenetrável da fragilidade do governar, a não ser quando se faz para os grandes, como até hoje se faz. Bolsas diversas seguram a explosão. Mas não consertam o barril de pólvora do sistema injusto e ineficiente.

 

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