O tempo só existe no presente, ou, quanto tempo o tempo tem

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Toda vez que, a cada dia, nos assombra mais um fato tenebroso transmitido em tempo real dos tantos que têm nos assombrado neste século, sinto que roubaram um pedaço do meu dia. Tanta coisa para curtir, aproveitar, e lá vem mais um estupro coletivo, centenas de mortos causados por uma mente doentia, por um espírito escravizado, por um títere que almeja a glória de ser o mais cruel, o mais rico, o detentor de mais ouro.

Daí a importância de termos um conceito próprio de liberdade. Liberdade para não depender desse fato de hoje, que ao acontecer já é ontem, para se sentir parte do mundo. E, para isso, desenhar a agenda que poderá ser o bem e o bom de hoje. Porque só existe o hoje, que com sorte vai se transformando no ontem que realizou, que agregou, que deu prazer, que ensinou, que aprendeu, que tocou, que se deixou tocar. Ou, que com sorte vai se transformar no amanhã que registrará novas realizações, agregações, prazeres, ensinamentos, aprendizados, tato e contato. Passado é registro. Futuro sabe-se lá.

Falo sobre isso porque a minha geração é aquela que viu a telinha nascer, e sabe que tem a liberdade de desligá-la como bem entende, não fica dependente dela para saber das coisas, não se sente dependente dela para se comunicar com outro ou outros. E esta minha geração se preocupa com a fragmentação do mundo das telinhas, que por colocar tanto tira o foco das pessoas em si mesmas, no que podem viver como pessoas, e vivem considerando cada vez mais como vivem as outras pessoas. A nova geração vive colada em alguma telinha, se comunica por ela, se informa por ela, e tem tanto, mas tanto, que é difícil que possam selecionar o que realmente importa do infinito que as telinhas são capazes de dar a cada pouco, on line, em tempo real. Que canseira esse tempo real do século XXI, um sempre seguido, e rapidamente seguido, por outro tão ou mais forte que o anterior, levando à nuvem os anteriores, os quais não se pode realmente elaborar sobre se não se consegue selecionar o que importa…

Ficamos felizes quando acompanhamos o interesse de tantos da geração XXI por ócio criativo, meditação, cultivo da terra mesmo que em hortas pequeninas feitas em edifícios bem verticais, música, cinema e literatura, papo furado, história das experiências de pessoas mais velhas – ou mesmo mais novas, vivendo o momento presente sem que estejam lhe roubando esse que é bem mais valioso. Sim, dêem uma paradinha. Não uma vez aqui e outra acolá, mas como rotina. Deixem que o passado já foi, está registrado, pode ser pesquisado, parte dele lembrado. E que o futuro – bem, esse depende do seu presente. Dê-se a ele.

 

 

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