A coisa branca | Por Fernando Albrecht

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Galinha é uma coisa branca que a mamãe compra no supermercado. Com poucas variações, foi esta a explicação dada pela maioria das crianças de até 10 anos de idade para uma pesquisa nos anos 1970, para aquilatar como os pequenos definiam animais cuja carne era vendida no comércio paulistano. O que é uma galinha, foi a pergunta. Foi um choque na época, porque aquilo que os mais velhos sabiam desde sempre, as criancinhas não tinham noção de como os galináceos eram ao vivo e em cores.

 Lembrei do caso esta semana quando fui engraxar os sapatos com o Paulo, que tem cadeira na Praça da Alfândega, ao lado do prédio da Caixa. Estava ele começando a passar a graxa quando veio uma mulher jovem com um casal de crianças na faixa dos 6 anos. Pediu licença ao engraxate e a mim para ficar vendo o trabalho. Quando ela quis ir embora. O menino pediu para ficar mais um pouco.

Achei isso fantástico, e cumprimentei a mãe por essa forma de espicaçar a curiosidade dos filhos, curiosidade que é fundamental para obter conhecimento. Quantas outras atividades humanas terá ela mostrado aos filhos? Eu sempre digo que o que faz um bom repórter não é o texto, é a curiosidade. Ele deve ter interesse de saber como as coisas funcionam.

Lamentavelmente, muitos jornalistas de hoje nascem sabendo. E não só eles, ouço essa queixa de professores universitários de todas as profissões liberais, a queixa é geral. Então, viva a curiosidade.

 

Em busca do funcho perdido

Foi a salada de maionese ou teria sido o galeto que estava estragado? Até hoje essa dúvida faz parte do meu departamento interno de intoxicações não identificadas. Foi em um feriadão de Finados, acho, nos anos 1960, que quase morri. Na noite anterior, eu e meu primo Rui tínhamos jantado numa galeteria da rua Benjamin Constant. Varamos a cidade em uma fulgurante motoneta Vespa.

 Durante a noite, já passei a sentir os efeitos de uma revolução intestinal, convulsão que seguiu madrugada e manhã afora. Por volta das 9h da manhã, eu comecei a achar que o cemitério teria um novo ocupante justo no Dia de Finados. Naqueles tempos, como dizia Jesus, pouca coisa abria em domingos e feriados, ainda mais no Dia dos Mortos. Corremos a cidade à procura de uma farmácia aberta, sem sucesso.

A essa altura eu suava frio, parecia ter uma bola no estômago e, pior, em seguida sobreveio uma dor de cabeça dos infernos. Congestão, pensei, e agora o que faço? O Rui não estava assim tão impressionado, mas eu, como moribundo, sabia que a coisa era séria.

– Quem sabe tomas um Underberg sem anestesia?

Procuramos e procuramos um boteco, até que achamos um na rua 24 de Outubro em frente do hoje Parcão. Pé-sujo com denominação de origem, o dono com os cotovelos no balcão, pastéis velhos e mofo novo. Cambaleante, entre e perguntei se ele tinha esse digestivo.

– Tá em falta, mas tenho um outro bitter à base de funcho, a patroa é quem prepara. Serve?

Servia qualquer coisa, poderia ser até terebintina, querosene de aviação, qualquer coisa que aliviasse a forte dor na boca do estômago. Entornei meio copo, paguei, e desabei numa cadeira. Cinco minutos, dez minutos, vinte, e não é que aquela coisa começou a fazer efeito? A dor começou a sumir, a dor de cabeça findou e, em menos de uma hora, estava pronto para outra.

Ressuscitei. Desde aquele dia procuro e não acho o Santo Graal de todos os remédios caseiros. Nunca mais achei. A patroa do dono do bar deve ter levado a fórmula para o além.

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