MANCHESTER À BEIRA-MAR | Por Daniel Mendes

MANCHESTER À BEIRA-MAR | Por Daniel Mendes

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“Manchester à beira-mar”, do cineasta Kenneth Lonergan, não é daqueles filmes leves feitos apenas para entreter.

Ele mostra o lado mais denso das razões que levam um homem a se trancar dentro de si mesmo. Relata de forma delicada e sensível o estado de profunda tristeza de Lee Chandler (Casey Affleck), uma espécie de zelador de um condomínio em Boston, Estados Unidos. Um “faz tudo” que remove o excesso de neve nas calçadas do prédio onde trabalha, mas que também troca lâmpadas, desentope privadas e não faz nenhuma questão de bajular os moradores em apuros que recorrem a ele.

Então ele recebe por telefone a notícia de que seu irmão morre. Logo ele tem de pegar a estrada e voltar a Manchester no estado de Massachusetts. Entre outras coisas, cabe a ele a missão de ir à escola e contar ao sobrinho Patrick (Lucas Hedges) o que aconteceu. Em seguida ele fica sabendo que seu irmão deixou um testamento, pedindo que ele se torne o tutor de seu filho adolescente. Então o que se segue é uma série de situações em que tio e sobrinho têm que conviver sem necessariamente estarem preparados para isso.

O filme aos poucos vai dando indícios dos motivos que levaram Lee a abandonar Manchester anos antes. Vários “flashbacks” vão desenhando com sutileza os traços que formaram seu perfil psicológico. As razões de ele rejeitar voltar para sua cidade natal. E sua opção por viver solitário, com pouco dinheiro, e sem nenhum conforto num quarto de porão em Boston. Nesse ponto o filme exala angústia e sofrimento. Levamos quase um susto ao ver a cena do passado, de uma tragédia familiar terrível que destruiu para sempre a sua vida. Entendemos por que algumas pessoas da cidade são arredias e o tratam com desconfiança e até indiferença. Não há melodrama na narrativa dos detalhes. Tudo converge para um estado de impacto emocional do mais alto calibre.

Casey Affleck, como Lee, nos apresenta de maneira natural e bem convincente o mundo de um homem que se fecha voluntariamente. Sua relação com o sobrinho Patrick é delicada. Os dois desenvolvem um vínculo forte que por alguns momentos enfraquece a determinação de Lee de se manter a margem do mundo e adia seu retorno para sua vidinha anônima em Boston. “Manchester à beira-mar” não tem um final feliz ao estilo de Hollywood. Mas faz lembrar que as situações da vida muitas vezes nos levam para dentro de um turbilhão que nos oprime tanto, que a nossa vida pode mudar de rumo num piscar de olhos. Que a nossa vida certinha pode se transformar, de uma hora para outra, numa bagunça quase impossível de se reorganizar.

E é assim! Não raro as histórias da vida real não são de fácil solução. E quando as fortes emoções entram cena, o desconforto e a dor se mostram mais naturais que os sorrisos forçados. Trata-se de um filme honesto. Não finge que pessoas de carne e osso superam tragédias como se tivessem superpoderes. Não cai em lugares comuns e nem conta mentiras, como em muitos outros filmes que se vê no cinema e na televisão. Ele conta com humanidade a história de pessoas que realmente sofrem e não sabem o que fazer com isso. Apesar de toda a sua densidade, “Manchester à beira-mar” não é apenas um filme triste e irremediavelmente sombrio.

Mais do que isso, é um filme sobre a essência e espontaneidade presentes nas reações legítimas de seres humanos que precisam tocar a vida em frente, mas que parecem estar amarrados a traumas, que por mais que queiram esquecer, não conseguem. Fica aqui a dica. Ótimo filme! Manchester à Beira-mar!

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