As leis que regem os hotéis, não podem regulamentar a “hospedagem distribuída” | Por José Justo

As leis que regem os hotéis, não podem regulamentar a “hospedagem distribuída” | Por José Justo

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Com o que temos, é impossível regular o airbnb, o aluguel de temporada nas praias ou os aplicativos de hospedagem que pululam pelo planeta.

A economia é planetária (a aldeia global, de Marshal McLuhan) e isso começou com as grandes navegações, passou pelos trilhos da ferrovia, resvalou nas antenas do celular e acabou enroscada na antena da TV a cabo, que dá número de telefone em forma de brinde e embute a internet – a sua e a das coisas.

Da mesma forma que o I-tunes mudou a forma de vender música, o Ipod mudou a forma de ouvir sons, o Uber mudou a forma de organizar as caronas pagas e o Netflix mudou o jeito de alugar filmes, o airbnb, mudou a forma de dormir fora de casa. Porém, muito antes do Brian Chesky encher colchões de ar em São Francisco e criar um aplicativo
no celular, o Mtur do Brasil tentou (em vão) emplacar a figura execrável e pusilânime da matriz de classificação de um tipo de hospedagem chamada “Cama & Café”. Da mesma forma que, muito antes do Travis Kalanick criar o Uber, as administrações
das grandes cidades clamavam por solidariedade dos motoristas para organizar caronas a fim de reduzir o número de carros nas entulhadas ruas feitas para carroças.

Agora, por causa da “hospedagem distribuída”, a hotelaria está a vociferar. Mas, porque isso aconteceu assim, de repente?

Não foi de repente!
Claro que sentimos isso com muita intensidade, com todos os gadgats chegando ao mesmo tempo, dentro de uma mesma geração, mas, isso começou um pouco antes, quando da decisão do imperador, de dominar o mundo com novas armas, não sangrentas e com poderes mais impactantes. As armas, se assim puderem ser chamadas, são os programas de computador, armazenados nas “novas pistolas” em forma de maquininhas simpáticas, coloridas e que cabem no bolso.

O império contra-ataca!
Pois é. Quem mudou tudo, mesmo, foi o Imperador. E o fez de forma nada sutil. Da mesma forma que uma determinada igreja inverteu o sentido da frase de Aristóteles quando ele disse que “O homem fez deuses à sua imagem e semelhança”, trocando para “Deus fez o homem â sua imagem e semelhança”, o Rei do Norte pegou aquele adágio dos estados atávicos pós pedra lascada, que pregava “o que não é permitido é proibido” e inverteu: “o que não é proibido, será permitido”. E, para convencer a todos que assim será e se não fizerem como ele quer, ele manda as super-tropas fazerem manobras perto da fronteira, só para deixar claro quem é que manda.

Por isso, o mundo se liberou de um jeito que chega a serem risíveis, os aldeões do planeta se estrebuchando em ataques de atavismo explícito, tentando um jeito de proteger seu butim operado à moda antiga. E isso se aplica a tudo, e não só no hotelismo.

De nada adiantará, pedir para a dona Margarete parar de alugar por 50 reais por noite, o quarto da filha que se casou, ou pedir para dona Noêmia não colocar a casa da praia no aplicativo e ganhar algum para pagar a manutenção do jardim. Elas farão isso e pronto.

Mas, o que fazer com os hotéis?
Os hotéis passaram por uma mudança brutal no século passado, quando um empreendedor – se não me engano, ele se chamava Adolpho Lindemberg – descobriu uma maneira de construir prédios para serem usados como hotel, sem pedir empréstimos aos bancos, e sem manter a propriedade. Ele inventou os flats. A Parthenon mudou o conceito de hotelaria, adicionou dois novos personagens na paisagem corporativa dos hoteleiros e, com o tempo, nada pôde frear esta nova forma de empreender e investir. Com o tempo os flats ganharam um nome burocrático
e estúpido, de Condo-Hotel, e nada mudou na dor de cabeça dos antigos doutores donos de hotel. E antes de o mundo se acostumar com esta modalidade, já havia surgido no horizonte outra forma de promover a criação de hospedagem, cada vez mais pulverizado: o fracionado, que dá uma nova roupa de festa para os compartilhados (ou time-sharing). De nada adiantará isso também, pois, o “aplicativo” e a “hospedagem distribuída”, soterrarão todas as tentativas de volta ao passado, ou mesmo de se manter no presente.

Agora?
Os hotéis poderão sobreviver por algum tempo, como sobreviveram as vídeo locadoras, os criadores de cavalos, os maquinistas ferroviários, os manipuladores de remédios e os guarda-livros, mas, os hotéis como hoje vemos, aqueles prédios sem graça (ou mesmo alguns com alguma graça) cheios de janelinhas e placas luminosas, não continuarão a ser o “vetor do desenvolvimento” da hospedagem. E desaparecerão depois de algum tempo que não está determinado, para dar lugar aos aplicativos de hospedagem. O prédio passará a ser menos importante, da mesma forma que o processamento “na nuvem”, fez desaparecer a sala fria do CPD nas grandes corporações (e nas pequenas também) e levou junto consigo os barbudinhos que se comportavam como “bruxos do computador”.

Cavalos… Ferraduras… Lampiões… Corpetes, espartilhos e rocas de fiar! Ainda existem. Mas, servem apenas para alimentar o folclore, para matar a saudade de um passado que não volta mais, da mesma forma que sumiram os fuscas, o bromil e o mertiolate que ardia. O mundo se mudou para dentro dos aplicativos e vamos ter que conviver, tanto com as ordens do imperador, como com os I-foods, Decolares, Facebooks, Whatsapps, Netflixs, Telegás, I-tunes, Wases, e a central de consultas para marcar o médico. E o pagamento será sempre no cartão, queira o Meirelles ou não.

Existirão hotéis?
A longo prazo, a resposta é não.
E nós, hoteleiros, como vamos fazer?
A hotelaria vai morrer!
Ou vai colocar seus quartos para vender em aplicativos e continuará ganhando dinheiro com a arte de bem receber. Os lugares de dormir estarão distribuídos em quantos endereços for possível cadastrar, inclusive, muitos podem estar juntos. Eles podem estar em grupos, instalados na mesma cidade, no mesmo bairro, no mesmo quarteirão e até no mesmo edifício, (porem, globalmente, estarão todos agrupados em uma memória pam-gênica) e o hóspede pegará a chave (que chave, seu justo? Não tem mais como abrir a porta com o Cartão de Crédito ou o QRcode da tela do celular?) No aeroporto ou na recepção do evento e irá direto para a cama. O café chega pelo I-food, a camareira pelo I-housekeeping e o carro fica em casa, para ir de uber.
A conta já estará acertada neste mundo pré-pago e o seguro cobrirá o lençol rasgado.

Fica a pergunta:
Qual será a próxima ideia que vai prejudicar a hotelaria brasileira?
A Hotelaria reclamou da água encanada nos quartos, do banheiro, da eletricidade, da chegada dos hotéis internacionais (foi isso que fez nascer a ABIH em 1936, lá no Rio de Janeiro), dos cassinos, do fim dos cassinos, da garagem, do telefone, do telex, do ecad, do fax, da internet com fio, da internet sem fio, da EMBRATUR construindo hotéis, do BNDES financiando hotéis, do fiset, do flat, da ota, do b&b, da acessibilidade e, por último, do bnb…

E caímos na mesma esparrela de pedir ao governo para criar impostos para eles! Mas, aí, não estaremos ajudando a hotelaria ganhar mais dinheiro ou tentando melhorar nossa performance e, sim, ajudando o governo arrecadar mais para gastar em jatinho e jantinha para a côrte!

Então, está na hora de começar a tremer de medo, criar leis para este novo cenário e reclamar do “novo”… o que mesmo?

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