ALTOS E BAIXOS | Por Daniel Mendes

ALTOS E BAIXOS | Por Daniel Mendes

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Na tranquila manhã de um sábado preguiçoso, um sujeito indeterminado acorda em seu fofo metro e meio quadrado.

As notícias ao redor acordaram mais cedo. Elas são boas e más. Em poucos minutos o cheiro agradável de café vai inundar a casa. Não haverá espaço para as ações da bolsa que estão despencando; e nem para as que estão em alta no mercado. Nosso amigo recém-acordado não estará eufórico pelos times da parte de cima da tabela, que ainda sonham com o campeonato, e nem estará irritado por um daqueles outros que só brigam para não estar entre os últimos quatro. E é assim, que times e ações estão, ora em alta, ora em baixa.

Por que tudo na vida de todo mundo é todo tempo alternância de altos e baixos. Num dia se está em completa paz; em outro se está bem no meio de um turbilhão em completa confusão. Num dia só o que há ao redor é calmaria; mas em outro há um grande furacão. Um belo dia você está com a filha vendo a Pepa Pig; e em outro você está com insônia assistindo a nova temporada de “Leftovers”. Um dia se tem do lado o amor da vida; em outro você olha para o lado e não vê nem a própria sombra. Num dia você se sente seguro num bom emprego; em outro você acorda e não tem nada o que fazer.

Mas nosso amigo, enquanto espera o seu pão aquecer na torradeira, olha pela janela e observa sol entre nuvens. Cinco minutos de sol tímido para cada dez minutos de nuvens que vão se acumulando. Há um ruído de máquina de lavar ao fundo que se vierem os milímetros previstos de chuva, ficará meio sem sentido. “Será que vai chover?” ele pergunta pensando se o ciclo da máquina vai completar e se vai ter chance de secar a roupa. “Será que vai chover?” pergunta no mesmo instante perto dali, o dono da plantação que precisa urgente de chuva para não perder a safra. E é assim que o mesmo dia de chuva para uns vem na hora certa, mas para outros só vem para atrapalhar.

No canto da mesa da cozinha há um jornal de ontem aberto com os números atualizados da corrida presidencial. Um candidato em alta, outro em baixa. E os dois totalmente perdidos no que nem sabem direito. Por que, francamente, o que ambos têm com toda certeza é uma “alta” porcentagem de incapacidade misturada com absurda “baixa” autocrítica.

Mas nosso amigo agora já beberica os primeiros goles do seu café encorpado. Em sua própria história particular há lembranças de momentos incrivelmente bons. Mas agora ele se pergunta por que, com tantas coisas boas para pensar, ele se concentra apenas no que não vai bem. A sua “lhasa” é linda noventa e nove vírgula nove por cento do tempo. Mas ele se irrita com a cachorra naquele um minutinho em que ela corre atrás do próprio rabo e late como uma louca. Ele troca rápido de pensamento e agora se lembra do dia que andou na ponte do Brooklin. Logo ele que em outro dia sem “glamour” cruzou outra ponte. A de Manoel Viana. Por que é assim. Um dia se está trajado a rigor; mas em outro se está dentro de um pijama velho e surrado. Um dia você está a fim de lutar por alguma coisa boa; mas em outro você empaca e quase chega ao fim do poço.

Esse cara já andou a pé e de bicicleta. Depois de ônibus, van e carona. Aprendeu a dirigir e comprou seu primeiro carro. Depois roubaram seu carro e, de novo, ele ficou a pé ou de carona. Com o tempo ele andou de Mercedes e avião. Depois financiou um carro completo, mas que era “um ponto zero”. Quantos altos e baixos! Ele já teve dias de pão torrado e mingau de farinha tostada e açúcar cristal. Mas também já comeu coisas sofisticadas escritas em francês num cardápio com capa de couro. Ele já teve roupas feitas sob medida que já não existem. Mas é a velha camisa xadrez e o velho blusão preto de lã que estão a mais de vinte anos em seu guarda-roupa.

Às vezes ele tem dinheiro, às vezes não. Às vezes ele pode ir para a praia, às vezes fica em casa. Às vezes tem trabalho, às vezes só tem contas atrasadas para pagar. Às vezes ele está cercado de gente de todo tipo que ri de qualquer bobagem; às vezes totalmente sozinho sem ninguém disposto a ver quando ele chora. Há dias de alarido, mas outros de total silêncio. Mas tudo na vida é assim. Bons e maus momentos. Gente fingida por perto e gente sincera que as circunstâncias levam para longe. Coisas boas todo tempo. E coisas ruins também. Os altos e baixos.

E aí? Você tem mais “altos”? Ou mais “baixos”? Suas percepções são anãs? Ou são gigantes? Eu por aqui não sei muita coisa mais. Só trago essas palavras para você pensar um pouco e refletir no seu caso. Não tenho grandes pretensões de me entender por inteiro, ou entender as pessoas. Cada um é como é. Mas eu sei que estou pronto para muitas outras coisas boas e ruins. Por que ainda estou vivo e tenho a prova dos riscos mostrados pelo meu eletrocardiograma. Uns riscos que sobem e depois descem. E de novo sobem e de novo descem. É até bonito de ver. Um ziguezague insano. Constante. Na minha mão o meu eletro! Ora vejam. Eis a prova do crime. Uma tira fina de papel que me deixa ver os altos e baixos do meu coração. E o cara com a xícara de café, que acordou a pouco, e agora ouve os estalos dos pingos fortes de chuva lá fora, sou eu!

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Daniel Mendes é publicitário. Especialista em designer gráfico. Apreciador de cinema e de boa literatura. Observador cuidadoso do cotidiano. Atento às novas formas de comunicação e interação social. Cronista dos temas leves de seu tempo. Mas também explorador profundo das situações que provocam indignação e que nos induzem a fazer profunda reflexão.

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