A ELEIÇÃO DAS REDES SOCIAIS | Por Daniel Mendes

A ELEIÇÃO DAS REDES SOCIAIS | Por Daniel Mendes

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Já na reta final da disputa presidencial, eu venho aqui para falar sobre as redes sociais à disposição das militâncias e a facilidade de clicar nos botões de “enviar” para propagar mensagens de todo tipo sem análise de mérito ou veracidade.

É de conhecimento amplo que vivemos em um país de poucos leitores. Cada vez mais as pessoas ficam superficiais e desinformadas. Vão optando pelas novas tecnologias que oferecem a possibilidade de ver as coisas cada vez mais com menor esforço. Nosso ensino público tem evidentes limitações. Professores mal remunerados que são verdadeiros heróis lutando pela sobrevivência de norte a sul. Alunos mal alimentados em salas de aula precárias e desaparelhadas, filhos de famílias desfeitas onde há falta de estímulo e sobram abusos de todo tipo. E também por isso, entre óbvios plágios e em flagrante violação de direitos autorais vão se formando novos bacharéis, mestres e doutores que chegam aonde chegam por que são ótimos em escrever coisas da própria autoria, mas que no fundo são só exercício de dar “control C + control V”.

Fica difícil assim. Lendo pouco. Raciocinando nada. Infantilizando o cérebro com programas de televisão meramente recreativos. Viciando os dedos em curtir, compartilhar e comentar postagens. Cada vez mais optando pela comunicação on-line e sacrificando o frente a frente do olho no olho. Sem percepção e bagagem cultural para fazer o filtro do que recebem massivamente em suas redes. Como pensar? Como discernir? Como fazer distinção entre o que é fato concreto e o que é uma detestável “Fake News”? E o que dá medo é que esses supostos representantes do povo brasileiro sabem disso tudo e exploram sem o menor pudor a carência intelectual do povo. Os que estão no poder vão ao ar nas janelas da propaganda eleitoral gratuita para repetir o que já foi dito a quatro, oito, doze, dezesseis anos atrás. Os que não estão no poder desprezam a inteligência das pessoas expondo o outro lado e repetindo com outros verbos e adjetivos a mesma lenga-lenga de sempre. Aí quem era oposição dali a pouco passa a ser da situação, mas os problemas fundamentais apenas aumentando enquanto eles se alternam. Até fazem algumas coisas boas para beneficiar quem realmente precisa. Mas às vezes quem analisa friamente pode concluir que tais “programas” dão só a impressão de ser mais uma espécie de esmola para mascarar as coisas graves e sujas dos bastidores que tentam esconder.

Mas aí um dia os opositores enraivecidos dão um jeito e descobrem. Jogam tudo no ventilador e a coisa sai na mídia. Mas e daí? No próximo ciclo político eles também estarão na berlinda, por que também são corruptíveis. Um dia, há alguns anos atrás, eu estava a trabalho em São Paulo. Desci para o café e na mesa do lado estava o José Dirceu. Estávamos no mesmo hotel. Dava para ouvi-lo falando ao telefone e eu sei que a conversa com alguém do outro lado era sobre o Palocci por que eu ouvi. Ele me cumprimentou com um leve sorriso e um meneio de cabeça enquanto continuava seu papo matinal ao celular. Não parecia nem um pouco preocupado. Na frente dele a Folha de São Paulo estava aberta ocupando quase toda mesa. Vi que eram as páginas dos indicadores econômicos. No meio de ataques que bombardeavam a sua reputação, o antigo chefe da casa civil, estava mais preocupado com os índices da Bovespa e das outras bolsas ao redor do mundo; enquanto eu me deliciava na farra de carboidratos. E é por isso que eu vejo as pessoas brigando? Não se encontram há anos, mas se dão o direito de se sentir ofendidas com o que o outro publica no Facebook? Entram na área de comentários e detonam seus parentes e amigos próximos ou distantes?

A suposta turma do fascismo disputando a final da copa do mundo contra o pessoal do socialismo. Discutem as cores. Beijam idosos, acalentam crianças de colo. Editam vídeos para ficar só com a parte que interessa. Usam nordestinos. Falam em privatizações e caixa dois. Falam em ditadura, em lei Rouanet e em Pré-sal. Ridicularizam a falta de um dedo mínimo na mão de um ex-metalúrgico que agora está presidiário, mas que já foi presidente, “algo que nunca existiu antes na história desse país”. E o contra-ataque vem na forma de uma referência a Hitler num desenho de suástica feito a canivete por algum fascista. Detonam o juiz Moro. Ridiculamente citam textos bíblicos para impressionar evangélicos. Transformam a disputa presidencial numa espécie de jogo do século entre o uso maciço de armas contra a ideologia de gênero. Sobra até para o Roger Waters! Tudo isso para quê? Me digam, por quê? Por que francamente, será que vale a pena dar vazão ao ódio, desprezar o amor e o bom senso agora em 2018 só para daqui a quatro anos, ver tudo outra vez, mas com os mesmos problemas fundamentais apenas se agravando? Será que não é o caso de admitir humildemente que os sistemas políticos humanos é que estão falidos?

E se eu estou enganado, então eu devo estar louco. Por que na minha óbvia “esquizofrenia” eu não devo estar enxergando direito. Devo estar vendo coisas que não existem. Não devo estar vendo que o que está acontecendo é só na minha cabeça. Que há empregos em abundância. Que os políticos são honestos. Que professores ganham salários dignos e nossa educação é uma das melhores do mundo. Que não há mais preconceitos de nenhuma espécie. Que as pessoas podem parar seus carros no semáforo à noite nas grandes capitais. Que não há mais gente morrendo em corredores sujos de hospitais. Que não há mais filas para se conseguir acompanhamento pré-natal. E tudo está tão bom! Louco sou eu! Louco devo ser eu!

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Daniel Mendes é publicitário. Especialista em designer gráfico. Apreciador de cinema e de boa literatura. Observador cuidadoso do cotidiano. Atento às novas formas de comunicação e interação social. Cronista dos temas leves de seu tempo. Mas também explorador profundo das situações que provocam indignação e que nos induzem a fazer profunda reflexão.

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