FUTEBOL EM SMART LED OU EM PRETO E BRANCO? | Por Daniel Mendes

FUTEBOL EM SMART LED OU EM PRETO E BRANCO? | Por Daniel Mendes

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O Pelé seria o Messi se jogasse hoje? E o Messi seria o Pelé dos anos 60? O Pelé seria rei em tempos de aparelhos de TV smart led? E o Messi ganharia tantas bolas de ouro em tempos de TV em preto e branco?

Essas são perguntas que volta e meia aparecem nos debates esportivos de rádio e TV. Geram conversas controversas e comentários acalorados. Quase um debate inócuo entre socialismo e neoliberalismo. Eu, particularmente, não acho razoável e nem justo fazer esse tipo de comparação. Por que cada um é de sua época. E ainda não inventaram o túnel do tempo no esporte. Nem Pelé, nem Messi, podem viajar pelo tempo para validar o que especulam a respeito deles. Ambos foram parte de esquadrões que usavam camisas de outra cor e estiveram cercados de grupos de jogadores distintos, enfrentando adversários diferentes. Alfredo Di Stéfano foi a flecha loira dos gramados espanhóis e argentinos. Diego Maradona ganhou a copa de 1986 com sua “mano de Diós”. Ferenc Puskas foi o genial mágico “magiar” dos húngaros. Assim como Johan Cruijff foi o melhor europeu do século XX e líder da “laranja mecânica” holandesa.

Não são as teses e as comparações que tirarão isso de cada um deles! Entraram para sempre na história e permanecerão no “hall” da fama do futebol. O jogo evolui a cada década. Continua evoluindo. Em 2035 não terá nada do que tem hoje. Os jogadores se tornaram atletas de alta performance. Os esquemas táticos passaram a privilegiar diminuição de espaço. A velocidade e a força se tornaram tão ou mais importantes que a habilidade no trato da bola. E mesmo com as mesmas dimensões do campo e as mesmas regras, o esporte hoje parece outro. E nunca vamos conseguir saber se o Pelé conseguiria fazer hoje o que fez e nem se o Messi faria no passado o que hoje faz.

Se colocarmos dois monitores lado a lado e no da esquerda passarmos a final da copa de 1970 entre Brasil e Itália e no da direita qualquer jogo da “Premier Ligue” vamos ver que os jogos são diferentes. Na esquerda vamos ver os jogadores com tempo demais para dominar a bola, erguer a cabeça, olhar todo campo e escolher a direção do passe ou do lançamento longo. Na direita vamos ver facilmente duas linhas de quatro, com ocupação de espaço e movimentação defensiva por zona quase implacável. No da esquerda vamos ver meio campistas com marcação frouxa. No da direita vamos ver marcação alta sufocando a saída de bola e fazendo até o goleiro jogar mais com o pé. No da esquerda uma bola mais pesada. No da direita uma bola leve e louca toda cheia de efeitos improváveis. No da esquerda imposição técnica. No da direita imposição física. Tudo muito diferente. Antes os sistemas defensivos não eram tão eficientes. Hoje o craque tem marcação colada e o plano B e C para ser desarmado, caso drible o primeiro e o segundo defensor. Os caras hoje correm 14 km por jogo. E quem trota em campo, como o Paulo Henrique Ganso, mesmo com toda técnica, termina indo da reserva do Sevilha para o quase esquecimento no Amiens da França.

É o que a fisiologia e a ciência trouxeram para o esporte. Uma mudança de cara e de identidade. Uma certeza de que entramos para nunca mais sair na era da alta preparação física para alcançar o alto desempenho. O jogo que era mais vertical, cada vez mais fica horizontal na medida em que se valoriza a posse de bola. Então quando se ataca o terço final e se bate no muro da defesa a bola tem que ir para o lado. É o passe de segurança, mesmo que o jogo fique enfadonho e previsível. Cada vez mais as estatísticas e os mapas de calor invadem. Cada vez mais os jogos são decididos em bolas paradas e levantadas na área. Cada vez mais o “fair play” sendo usado de maneira suja pelo goleiro do time que está na frente do placar. Cada levantamento na área é pelo menos dois minutos de goleiro deitado na pequena área para ganhar tempo.

Então não é se o Pelé seria o Messi se jogasse hoje; e nem se o Messi seria o Pelé dos anos 60. É só uma questão de reconhecer que os esportes são outros e que cada lenda conquistou seu espaço. Como o DNA e a impressão digital, nunca veremos dois craques iguais. E para quem gosta de futebol cada um a seu tempo, no seu time, na sua data, nunca sairão das nossas melhores memórias.

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