A SUPREMA EUFORIA NO MEIO DO LIXO

A SUPREMA EUFORIA NO MEIO DO LIXO

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Nas redes sociais eu vi de novo as fotos das pessoas vestidas de branco. Elas e seus sorrisos de orelha a orelha numa profusão louca de “selfies”. Elas e seus braços estendidos numa repetição previsível de brindes com taças de vidro e de plástico. Em todo canto espumantes espumando e o ruído característico do gás escapando das latas de cerveja e das garrafas “pet”. Muita comida. Muita gente se esbaldando. Muita bebida, ao som de rojões e fogos espocando desde o meio da tarde. Essa é a rotina que se repete todo ano, quando o 31 de dezembro se rende às doze badaladas noturnas que proclamam a chegada de mais um novo ano.

No meu aplicativo, dezenas de “bips” anunciando a chegada de mensagens. Amigos me desejando um novo ano bom, cheio de fartura, paz e dinheiro no bolso. Saúde para dar e vender e essas coisas que se escreve, ouve e lê em função de um suposto espírito de fraternidade que se manifesta com maior intensidade nessas datas.

Mas lá fora só o barulho. Dos fogos coreografando o céu escuro. Dos latidos desesperado dos cães. Lá fora do outro lado do muro a música alta bombando. Alarido e sons de gargalhada turbinada por álcool. Letras pobres de funk e sertanejo universitário. Composições rasteiras e sem sentido que pisam a poesia com desdém em nome de um “hit” da moda que inexplicavelmente apareceu na mídia como “a música do ano”. E é isso. Dancinha com a mão fechada entre os olhos e muita “sofrência”. Quando talvez o maior sofrimento seja o de quem é obrigado a ouvir essas coisas às três da manhã! Que coisa triste!

É o que acontece. Festa para todo lado. Aqui do lado e na rua de trás. Nas festas nos subúrbios e nas coberturas. No asfalto e nas areias das praias de norte a sul.

E sobre os manjados shows pirotécnicos à beira mar é patética toda euforia tentando se justificar no meio do lixo. A maioria das pessoas agindo em nome de uma tradição que repete frases e posturas só por que é o dia do “Réveillon”. Comem todo estoque de peru e lentilha. Alguns gritam e cantam refrões com a boca aberta e espalham farofa. E entortam o pescoço olhando para cima os dezessete minutos de queima ininterrupta dos fogos de artifício. Tomam “todas” e fazem votos de boas festas. Se abraçam e se beijam. Falam e falam querendo e desejando mais paz e amor para o mundo enquanto pisoteiam o próprio lixo. Falam e falam frases feitas, mas não consideram se tornar pessoas melhores. Falam e falam em começar o ano novo com o pé direito. E começar mais uma dieta. E traçar mais uma meta. Mas só o que conseguem é produzir futilidade e lixo. Toneladas e mais toneladas de lixo. Coisa triste!

Por que em nome de uma alegria e euforia idiota as garrafas vazias tem que ser descartadas. Por que quando a bebida acaba a garrafa que estava na mão precisa ir para o chão. E no chão vão continuar quando o bloco de horrores encerrar o expediente.  Pois quando o povaréu exausto vai embora, eles não se lembram de ensacar e levar embora o próprio lixo. Não podem nem com as próprias pernas e saem bambeando com a língua solta e enrolada. Saem exclamando coisas idiotas e inconvenientes. Saem de carro e se esquecem de acender o farol e colocar o cinto de segurança. Vão ziguezagueando no trânsito e causando acidentes. E na manhã do primeiro dia do resto de suas vidinhas sem propósito; vão acordar às duas da tarde no novo bom ano de muita paz e saúde, e nem vão se lembrar da sujeira esquecida. Toneladas e mais toneladas de resto de comida Às moscas e milhares de garrafas abandonadas. E quando ouvirem falar no jornal nacional, das centenas de garis que trabalharam no sol escaldante até a exaustão para limpar as praias, eles não vão assumir que é o lixo deles. Vão até achar um absurdo. Mas não é com eles por que sempre, quando se trata de algo desagradável e errado, é sempre culpa dos outros. E de resto será apenas os resquícios de cheiro de pólvora no ar. De gente que iniciou o novo ano queimando o filme mais uma vez. Gente de ressaca e de mau humor.

E continuarão os outros dias do ano mentindo, matando, roubando, corrompendo e sujando. E continuarão com suas tradições. E continuará sendo assim. Por que têm sido assim desde o ano 46AC da Roma do deus Jano, o deus dos portões. E nada será diferente. Lixo e mais lixo. Coisa triste!

 

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Daniel Mendes é publicitário. Especialista em designer gráfico. Apreciador de cinema e de boa literatura. Observador cuidadoso do cotidiano. Atento às novas formas de comunicação e interação social. Cronista dos temas leves de seu tempo. Mas também explorador profundo das situações que provocam indignação e que nos induzem a fazer profunda reflexão.

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