O INCÊNDIO DO PRÉDIO QUE EXISTIA, MAS NÃO EXISTIA

O INCÊNDIO DO PRÉDIO QUE EXISTIA, MAS NÃO EXISTIA

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O fim de semana foi todo de reportagens sobre a tragédia do ninho do urubu. Foi muita solidariedade de norte a sul nos regionais que não pararam. Foi do triste choro e desespero dos pais dos garotos às entrevistas beirando ao sensacionalismo para induzir à emoção. Foi dos craques de dentro e fora do país se manifestando com pesar; eles mesmos cabisbaixos lembrando-se do tempo em que também moraram em alojamentos. Muito conteúdo relacionado ao acidente nas redes sociais. Braçadeiras indicando luto. Minutos de silêncio. Mas foi acima de tudo, um fim de semana de perguntas. Sim, de muitas perguntas. Por que quando algo assim acontece é natural procurar informações sobre vistorias e laudos de segurança.

No entanto foi noticiado que os quartos dos meninos não estavam na planta, e que o clube já havia sido multado por que as instalações não eram adequadas. Então, de quem foi a culpa? De quem adaptou os contêineres e não pensou numa segunda porta de emergência? Dos bombeiros que só vistoriaram o que está na planta, mas que fizeram vistas grossas para um prédio que existe, mas não existe? Dos dirigentes do clube que tem a tutela dos adolescentes, mas não providenciaram que funcionários adultos acordados estivessem atentos a todos os detalhes dentro das instalações que existem, mas não existem? E o que dizer das multas repetidas ao clube que provam que o fato já era conhecido e previsto?

Mas em meio a tudo isso, por que o sonho das famílias e dos garotos foi interrompido. Por que aconteceu no CT do Flamengo, um dos gigantes do nosso futebol. Por que esse esporte é a paixão nacional. Por que a tristeza é real e se espalhou; a hashtag “#forçaflamengo” subiu vertiginosamente e teve dezenas de milhares de publicações e compartilhamentos.  Mas em meio a uma dessas publicações eu li algo intrigante e perturbador que me fez pensar imediatamente no assunto por um ângulo diferente.

Por que “#forçaflamengo”? Sim, diante de uma tragédia chocante como essa, quem tem coração, quem tem empatia se sente destruído por dentro e precisa mesmo de muita força. O Flamengo como instituição é uma coisa. Mas as pessoas que tocam a instituição centenária Flamengo são outra bem diferente. O Flamengo como instituição vai continuar forte pela força que sempre teve, sendo o maior clube de futebol do Brasil. E certamente é esse Flamengo instituição um exemplo de força gigantesca. Mas as pessoas que mandam no clube, que transitam pelos corredores e que se reúnem nos gabinetes, estas precisam se explicar. É claro que em nenhum momento queriam que algo pavoroso assim acontecesse em suas dependências. Mas há que haver explicações para o ocorrido. Se a área do alojamento para a prefeitura do Rio era um estacionamento, mas todo mundo dentro do clube sabia que não havia ali um estacionamento e sim um alojamento cheio de quartos com camas de beliche para jogadores da base, quem se omitiu e deu de ombros para a situação? Se o clube foi multado e pessoas de dentro do clube leram as notificações, quem agiu com irresponsabilidade? Se os bombeiros foram ao CT e vistoriaram só o que há nas plantas, e olharam e não enxergaram um prédio que não está em nenhuma planta, mas que está lá, por que não colocam óculos? E se não precisam de óculos por que não interditam?

É claro que conscientemente ninguém, do segurança ao presidente do Flamengo, queria a perda de vidas. Mas para que existe prevenção de acidentes? Por que a necessidade de laudos de segurança? Por que uma gambiarra num aparelho de ar condicionado? Por que manter um prédio que existe na prática, mas não existe na planta?   

Então eu volto à frase contundente que me sacudiu. Intrigante e perturbadora frase que me fez pensar imediatamente no assunto por um ângulo diferente. Criar a hashtag “#forçaflamengo” não é o mesmo que uma “#forçavale” no caso das barragens de Mariana e Brumadinho?

Andei lendo que a Vale “não vê responsabilidade” e pede desbloqueio de bens. Andei lendo que a Companhia enviou à Justiça de Minas Gerais um pedido de reconsideração sobre as decisões que bloquearam R$11 bilhões da empresa. A Vale não vê responsabilidade. Nem por dolo, que é infração intencional da lei, nem por culpa, que é a infração da lei por imperícia, imprudência ou negligência. Ela atribui o acontecido “a um acaso fortuito que ela está apurando ainda”, conforme o seu advogado disse ao jornal O Estado de São Paulo.

A Vale é uma empresa gigante. Como entidade jurídica é uma coisa. Já os braços, as mentes, o coração, as decisões, as escolhas, os rumos adotados pela empresa são de inteira responsabilidade dos seus funcionários e executivos que são pessoas físicas.

Então respeitamos as instituições. Não temos nada contra elas e nem queremos ser raivosos. Respeitamos o Flamengo e a Vale. Mas não podemos aliviar. Temos que fazer críticas pesadas e justas às pessoas que comandam os processos e tomam as decisões em seus respectivos escritórios. São irresponsáveis e precisam ser responsabilizados pela omissão, pelo descaso, pela pouca importância atribuída às vidas humanas.  

Pense. Agora cidades foram dizimadas. Rios foram contaminados. E o prédio do CT do Flamengo que não existia no papel, mas existia na real, agora realmente não existe mais, assim como aqueles dez meninos.

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