A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE TER UM LAR, E…

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE TER UM LAR, E…

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Imagine-se num lar acolhedor. Você não é o centro total das atenções. Mas mesmo assim os outros membros da família são gentis e carinhosos. Interagem, brincam, dão bastante atenção. Você se sente livre e à vontade junto com eles. Toda hora há momentos incríveis de alegria que todos compartilham. E você agradece a Deus todos os dias por ter aquelas pessoas legais e hospitaleiras por perto. Como foi bom que entraram em sua vida e você na delas!

Você é uma espécie de convidado de honra. Não um estrangeiro qualquer que saiu de um campo de refugiados; nem uma vítima qualquer de um desastre natural que é acolhida de forma humanitária; nem um parente distante que chegou de mala e cuia, vindo do interior. Muito mais do que tudo isso e, por uma série de motivos, você simplesmente foi convidado para vir morar junto. Por que todos ali reconhecem que você pode fazer muita diferença. Porque em tempos de humor ácido, depressão e solidão, você é uma espécie de solução encontrada, para que todos tenham a companhia de alguém que é reconhecido por ser leal e que é capaz de amar sem pedir nada em troca.

Então você agora é parte daquela família. Nas horas boas você está ali rindo junto. Nas horas difíceis você não vira às costas. A atmosfera é agradável. E tudo parece ser perfeito. Você se adaptou muito bem com os mais velhos e gosta tanto das crianças que elas passam boa parte do tempo brincando e correndo com você no pátio.

De noite antes de dormir você ora a sua maneira. É grato por que tem uma cama quentinha para dormir e amanhã, como hoje, você terá refeições deliciosas e água limpa. Tudo de novo. Que maravilha! Você se sente um sortudo. Não sabe como veio parar num lugar assim tão bom ao lado de pessoas tão queridas, que gostam de você de verdade. Você tem um lugar para chamar de lar. O seu lar.

Então, como nas outras centenas de vezes em que foram passear e você estava no banco de trás, mais uma vez você está indo junto. Depois de meia hora de viagem por uma estrada de asfalto irregular, o carro sacoleja tanto que sua bexiga dói fazendo com que a vontade de fazer xixi seja quase irresistível. Você não quer atrapalhar e aperta suas partes fazendo força para contrair as entranhas e fechar a uretra. Mais dez minutos e um deles diz que “pode ser aqui”. E você imagina que vão parar num posto de gasolina para comer algo delicioso, que você vai descer, urinar e depois comer algo antes de seguir viagem até o destino.

Então o carro para. Todos estão meio quietos. As portas se abrem e chamam você para fora. Aquela vontade tão grande de praticar mais um exercício de fazer “número um” em alto estilo não passou. Você quase já não estava aguentando mais. Mas agora já quase se sente aliviado. Ao descer você olha em volta e só vê uma estrada deserta e mato e mais mato por todos os lados. Você vê uma garrafa pet atirada, toda empoeirada. Mais adiante umas sacolas plásticas e uma fralda descartável enrolada para presente. Que gente porca que joga lixo pela janela. E você se pergunta incrédulo “como podem fazer isso”? Lá no alto o sol a pino atirando raios de luz e de calor intenso como flechas bem miradas na sua cabeça. Mesmo assim em seu pudor você se afasta um pouco para o lado para não ficar tão à vista ao se aliviar. E enquanto você fecha os olhos e sente aquele prazer indescritível de liberar uma mijada reprimida você ouve o motor. São eles que estão indo embora deixando você ali, descartado; como uma sacola ou uma garrafa de plástico, talvez como o cocô dentro daquela fralda arremessada.

Você agora é um cachorro indefeso. Abandonado. Agora você não tem mais um lar. Não tem mais sua caminha de cobertor velho. Não tem mais ração e água limpa num pote. Ali nem sombra tem. Agora para onde foram aquelas pessoas gentis que passavam a mão na sua cabeça? Para onde foram as crianças? Não vai ter mais brincadeiras? Não vai ter mais um ossinho para roer de vez em quando? Por quantas horas mais eu vou aguentar? Ei! Eu sou um “pet” insubstituível? Ou uma garrafa “pet” descartável?

Gente do céu! Se não voltarem talvez eu morra aqui. De fome e de sede. Ou atropelado! Ai meu Deus, que vontade de chorar! Latir! Uivar! Nem sei!

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