GREEN BOOK – DRAMA E COMÉDIA COM PAUSA PARA UM FRANGO FRITO

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“Green Book” é um típico filme de estrada ambientado em 1962. Trata-se da história de dois homens que não poderiam ser mais diferentes, um branco e outro negro. Conta a história real de Tony Lip e Don Shirley, protagonizados respectivamente por Viggo Mortensen e Mahershala Ali. Tony é um cara simples descendente de italianos, contratado para ser uma espécie de motorista e guarda-costas de Shirley que é um pianista negro de grande talento em meio a uma turnê pelo sul dos Estados Unidos. Enquanto o músico que se veste bem e fala muitas línguas é sensível e educado, Tony, no outro extremo, é um cara tosco e agressivo que fala com um sotaque carregado das ruas do Bronx.

Durante a viagem esses tipos são uma boa companhia, mesmo que a empreitada em si possa causar algum mal-estar. Mas o espectador pode sim refletir sobre questões delicadas que até hoje são discutidas, como o racismo, ou se divertir para valer com situações que fazem os opostos se atraírem. Afinal, como não reparar a figura elegante e cerebral do pianista, mergulhado na música clássica de Bach, mas propositalmente alheio à importância de uma Aretha Franklin e um James Brown? Como não admirar que esses mesmos artistas negros populares toquem e cantem a música que seu motorista adora e ouve no rádio do carro? Como não achar excêntrico que Shirley beba apenas uma marca específica de uísque e não toque em nada que não seja um legítimo piano Steinway? E enquanto ele vai no banco de trás e implora por silêncio, Tony está ao volante, com a gordura da comida frita escorrendo pelo queixo e gesticulando e tagarelando sem parar.

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Shirley ensinando Tony a “pegar o jeito” na hora de escrever cartas de amor para a esposa.

Sim. O contraste de seus temperamentos não é nada sutil. Don Shirley é um cara realizado, formal e meticuloso; um intelectual sem paciência para a vulgaridade que não tolera o desleixo. Enquanto isso Tony é o avesso. Uma caricatura. Ele é volúvel e emocional e passa a maior parte do tempo fumando e comendo ou ambos ao mesmo tempo. Como na cena grotesca em que ele, reclinado em uma cama de hotel, dobra um inteiro disco de pizza e o abocanha com fome voraz.

No filme, o tour começa em Nova York com escalas em lugares da Pensilvânia, Virgínia, Carolina do Norte, Geórgia, Alabama, Mississipi e Kentucky. Quanto mais para o sul eles descem, mais preconceito eles encontram. Entre as paradas para os shows em diversas cidades, as sucessivas viagens e os diálogos conflitantes vão expondo as diferenças de personalidade entre os homens dentro de um Cadillac azul turquesa. Sucessivos quartos de hotéis baratos e teatros e clubes repletos de gente vão aparecendo. A solidão do homem negro vai se confundindo com garrafas de uísque e a saudade de casa do homem branco vai se multiplicando em cartas sem muito conteúdo. Então acontece a mágica, os homens, a princípio antagônicos, vão encurtando e contornando suas distâncias, estabelecendo entre si um vínculo que vai se fortalecendo com a passagem do tempo.

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Shirley faz Tony dar ré para pegar o copo de refrigerante jogado pela janela.

O típico homem branco compreende a solidão de um homem negro que é um gênio solitário. E o homem negro compreende a simplicidade do homem branco que é prático e aprendeu a sabedoria das ruas. Eles viajam juntos. Se estressam com coisas pequenas, mas no fim comem frango frito juntos. Um é do tipo que não sabe se defender e sempre apanha e o outro sempre bate e leva vantagem ao fim de uma briga. Enfrentam juntos chuva e neve. Se acham e se perdem pelo caminho. Chegam a ser presos e passam uma noite na cadeia. Jogam coisas pela janela do Cadillac. Um serve de professor para o outro. Tony, o motorista, sabe mais da cultura do povo negro americano que o próprio pianista negro. E “Dr. Shirley” dá dicas ao seu motorista sobre dicção, etiqueta e dá um sermão sobre o motivo pelo qual o roubo é errado. Ele também ensina Tony a “pegar o jeito” na hora de escrever cartas de amor para a esposa.

No filme há detalhes que nos fazem refletir na bobagem que é atribuir superioridade ou inferioridade a alguém por causa da cor da sua pele. Por que de repente, considerando os clichês e os padrões da década de 60, o negro do filme é mais branco que o seu motorista branco. E o branco do filme é mais negro que o seu patrão negro. Por que o negro-branco é todo delicado e usa um cobertor sobre as pernas e sente nojo de engordurar as mãos delicadas. E o branco-negro come frango frito como um viking esfomeado. Daí os conflitos. Enquanto os negros americanos sofriam preconceito racial num país segregado ouvindo Chuck Berry e comendo frango frito engraxando as mãos, Shirley pertencia a uma classe à parte que não entendia sua própria gente e se comportava com as manias e vicissitudes de um intelectual esnobe.

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Por sua performance Mahershala Ali levou o Oscar e o Globo de Ouro
de melhor ator coadjuvante.

Green Book retrata várias situações em que Don Shirley é discriminado. Como numa cena em que famílias da elite branca estão felizes em poder ver e ouvir o prodígio musical tocar seu piano de cauda, mas não o deixam usar um banheiro interno. Em outro momento num desses hotéis de classe cinco estrelas, centenas de pessoas elegantemente trajadas se reúnem para ouvi-lo. Todos estão eufóricos com sua presença como músico virtuoso. Mas o mesmo gerente que o recebe com honra o faz entrar pelos fundos por dentro da cozinha e o proíbe mais tarde de jantar no restaurante.

Mas quaisquer que sejam as humilhações que Don sofra em sua viagem, ao ver o filme nós sabemos que nenhum dano real virá a ele enquanto Tony estiver ao seu lado. Mais do que seu motorista, Tony é seu leal escudeiro, nesse filme sobre amizade e sobre direitos civis que alterna momentos de drama e comédia.  Mas ao fim de dois meses tudo se resolve. Tony supera seus preconceitos tolos, enquanto Don aprende a não ser tão orgulhoso e perfeccionista.

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Edição de 1962 do Livro Verde – Guia para motoristas negros.

GREEN BOOK – O TÍTULO

O título do filme vem do “The Negro Motorist Green Book”, do autor Victor Hugo Green, ele mesmo um afrodescendente que elaborou um guia para os viajantes negros nas estradas do sul dos Estados Unidos, destacando os hotéis, motéis e restaurantes que aceitavam negros. O objetivo do guia era proporcionar ao viajante negro informações para evitar dificuldades e constrangimentos, e proporcionar uma viagem mais tranquila. Com ele os motoristas negros aprendiam o que fazer para ficar longe de problemas nas estradas sulistas.

O guia ficou conhecido popularmente como o “Livro Verde” e foi distribuído entre 1936 e 1966, período em que a segregação foi mais severa nos EUA. A publicação surgiu para atender uma nova classe média negra, que, mesmo ainda minoritária, começava a ter acesso a veículos motorizados. Mas as viagens de carro ainda continuavam cheias de obstáculos, como mostra o filme.

Na época, muitos restaurantes e hotéis não aceitavam negros. Havia ainda a dificuldade para conseguir assistência mecânica na estrada. Os mecânicos e os borracheiros se recusavam a ajudar em caso de quebra do carro ou pneu furado. Mas o guia mapeava os lugares e serviços menos hostis, que os negros em viagem poderiam recorrer em caso de emergência.

Felizmente, e bem aos poucos, com o avanço dos direitos civis, o livro foi se tornando desnecessário, até parar totalmente de ser distribuído. O próprio autor Green previu a mudança, na edição de 1948 do guia, onde escreveu: “Será um grande dia para nós quando pudermos suspender a publicação desse guia, e pudermos ir aonde quisermos, sem embaraços”.

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