AS CARINHAS AMARELAS E A ARTIFICIALIZAÇÃO DOS RELACIONAMENTOS

AS CARINHAS AMARELAS E A ARTIFICIALIZAÇÃO DOS RELACIONAMENTOS

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Pobres pessoas pobres, expostas a funk, roupas rasgadas, senhas de wi-fi e comunicação frívola à distância. Desaprendem valores abrindo mão de necessidades humanas básicas. Quando vínculos estão se volatizando. E novas formas fáceis de comunicação vão amordaçando a articulação de sons e calando a fala. Olho no olho está ficando cada dia mais raro. Tudo tem que ser correndo. Tudo tem que ser direto; lacônico. E as palavras escritas vão sendo substituídas por pacotes de emoticons que se pode baixar de graça.   

Eu digo bom dia. E pergunto como você está? Não recebo em troca nenhuma sílaba, nenhum som. Quase falo com a parede fria. Do outro lado um exercício de mudinhos que adora fazer mímica. As respostas, não gostam de nada em formato verbal ou escrito. Só vejo carinhas amarelas. E meu único trabalho é ver para onde aponta o semicírculo da boca. Se o semicírculo tem as pontas para cima isso quer dizer que a outra pessoa está rindo. Rindo da vida, de mim ou de alguma coisa que não pode me dizer. Se a voltinha tem as pontas pra baixo é tristeza, mau humor. Ou eu devo interpretar que se trata de indiferença ou azedume existencial?

Está assim hoje. Tem carinha para tudo. Carinha sorridente. Carinha sorridente com a boca aberta. Carinha sorridente com a boca aberta e os olhos fechados. Carinha piscando um dos olhos. Carinha corada. Carinha superaquecida. Carinha de cabeça para baixo. Carinha sorrindo com olhos sorridentes e três corações. Carinha pensativa. Carinha rolando de tanto rir.

E aí o cara tem que fazer exercício de interpretação de carinhas amarelas para saber o que o outro quis dizer. Mãos abertas e fechadas. Dedo para a direita e pra esquerda. Hi-five. E as charadas de qual é o nome do filme.

E é assim que se prioriza a brevidade e o subentendido.  E vai se economizando palavras e diminuindo cada vez mais as interações humanas. Antes do tempo em que se abolirá definitivamente as aulas de idiomas. Para que aula de Português, Inglês, espanhol? Quem sabe as secretarias de educação, autorizadas pelo MEC, desenvolvem novos currículos com aulas de emoticons, selfies e filtros.

E os consoles sofisticados de videogames são o território preferido dos gordinhos que fazem gols incríveis no PES e no FIFA, mas que na vida real não sentem o peso da bola e não conseguem nem três embaixadinhas.

Pobre forma de se divertir e de se comunicar essa! Em que o olho no olho se tornou apavorante. Em que ouvir palavras em alto e bom som se tornou desnecessário. Em que escrever uma redação de mais de 10 linhas se tornou um suplício.

Cadê a conversa em sua essência? As risadas compartilhadas? O abraço apertado? O conteúdo? O lado de dentro das pessoas? Cadê a empatia de se colocar no lugar do outro? Os jogos de tabuleiro? A hora do café? Os ouvidos atentos para aquela hora que temos a boca se abrindo para derramar o que nos agita por dentro?

É uma espécie de caos. Preguiça estúpida de ouvir os outros. Pressa idiota que anula a fala a esmo.  Geração de reativos.

E o mundo assim vai ficando um mundo de calados e ausentes. De punhos cheios de lesões por esforços repetitivos de tanta digitação. Quando coisas como o ato de ler um bom livro se tornou uma espécie de tortura psicológica. E eu aqui falando sozinho e tomando doses diárias de alguma coisa propositiva.

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