O CARTÃO, O LÁPIS PRETO E A LÁGRIMA.

O CARTÃO, O LÁPIS PRETO E A LÁGRIMA.

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Eu aprendi, primeiro com a minha mãe, e depois com a vida, que não devem existir dias específicos para demonstrar amor.

Porque amor deve ser espontâneo. Não deve vir em doses, nem com bula ou receita. Deve vir de dentro da gente de janeiro a janeiro. Deve ser cheio de demonstrações inequívocas de segunda a segunda. E porque todos os dias são iguais e oferecem novas oportunidades para demonstrar carinho, amor e gratidão.

E assim eu hoje ensino a minha filha que todos os dias são dias para celebrar o amor pelas pessoas especiais na nossa vida. E que não se deve dar ênfase ao “dia disso” e ao “dia daquilo”. Todos os dias são únicos. Todos são importantes. Todos os dias são bons para dar e receber presentes. Pensamos assim!

Mas um dia, alguém em algum lugar, começou a priorizar datas de aniversário, páscoa, natal. Um dia para as mães e outro para os pais e as crianças. Como se os outros dias também não fossem. São coisas do mundo das lojas e dos cartões de crédito. Do mundo comercial que prioriza o maior faturamento. E assim, nos primeiros dias de maio em todas as escolas os professores queridos incentivam os alunos a desenhar cartões e a dar algo de presente para as mães.

Mas minha filha não tem mais a mãe por perto. Só no melhor lugar do coração e nas lembranças. E assim, desde 2016, a vida se desdobrou e me apresentou o desafio de acumular mais uma função à minha original de pai. Porque desde então eu tenho sido um “paimãe” em tempo integral.

Nada mais me justifica hoje do que canalizar todas as energias para a Susane. É na hora de jogar bola. Na hora de cozinhar. Na hora de qualquer coisa! Quando explico que a grana está curta. Ou quando a levo para tomar um lanche. E eu tenho procurado ser um bom “paimãe”, por mais que às vezes me sinta esgotado emocionalmente. Mas também aprendi que se deve viver um dia de cada vez. E damos risada de tudo quando estamos juntos. Quase como se não existissem coisas mais sérias no mundo.

Semana passada, a escola e as vinte e poucas crianças da turma do sétimo ano B da minha filha estavam alvoraçadas. Todos os alunos receberam um pequeno retângulo de uns 4 X 6 centímetros. Num dos cantos um coração vermelho e em todas as bordas um arranjo de flores. No meio, em letras maiúsculas, “Mãe!!! É sinônimo de amor, coragem e dedicação! Feliz dia das mães!” A missão era colar esse retângulo num lápis e entregar para a mãe no domingo. E além do lápis, deveriam fazer outro cartão. Um maior com uma dobra. Com um desenho e algumas frases!

Mas a minha filha não tem a mãe por perto. E no caso dela, é o “paimãe”. Então no papel preso ao lápis, ela riscou os lugares em que havia a palavra “Mãe” e substituiu por “Pai”. Quando eu vi, a minha primeira reação foi de tristeza por que as crianças não deviam ter que ficar sem a mãe por perto e seu profundo amor, nesse mundo caótico.

Mas agora a Susane tem a mim. Nesse mundo de desemprego e poluição! De violência e corrupção. Eu, um “paimãe” que se esforça!

E ela então fez para mim o tal cartão maior. Imprimiu uma foto da gente numa folha de A4, que depois cortou e colou na cartolina. ( Ah! Ia esquecendo. Que para imprimir a tal foto ela saiu na chuva para ir na papelaria do bairro, e voltou com os pés, as meias e o tênis todos encharcados. Tive de mandar ela tomar um banho morno! ) Ela mesma desenhou um coração vermelho grande. E escreveu no lado de dentro que “não se escolhe apenas um dia no ano para gostar de quem se ama”. Por que ela sabe do meu amor. E ela também já pensa hoje do jeito que a minha mãe pensava. Que todos os dias são iguais. Que todos os dias são importantes! E também porque sabe que pode contar comigo, o “paimãe” que se preocupa em dar todos os toques. Que erra sim, mas que na maioria das vezes acerta e está presente!

Por que filhos não precisam mais de presentes do que de tempo! Eles querem o que a gente é; não o que a gente tem!

O que se sente numa hora dessas é coisa que, por mais que se pense, não se consegue traduzir em palavras. E eu só sei que estou aqui. Que às vezes não é fácil. Mas que vale a pena essa experiência indescritível da paternidade; ainda mais quando ela extravasa e se expande, a ponto de se assumir os dois papeis. O de pai e mãe num homem só.

Os dias são difíceis. Às vezes não toca musiquinha no fim das cenas. Mas os abraços, os sorrisos, as coreografias malucas que nós fazemos e as gargalhadas alimentam nosso lar com a espécie de sentimento que nos une e aproxima. Cada vez mais.

E eu hoje só sei dizer que busco ser para minha filha a espécie de pai que eu gostaria que meu pai tivesse sido para mim; e que não foi! E aqui em casa, todos os dias de 24 horas continuarão iguais. Porque são mesmo iguais. E porque quando temos dinheiro não precisamos do mundo comercial e da sua propaganda para nos dizer a hora e o dia em que devemos dizer um ao outro: “Eu te amo!”

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