LADRÕES E RECEPTADORES

LADRÕES E RECEPTADORES

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Toca o telefone. É o seu cliente desesperado pedindo uma assistência. Você pede calma e diz que em instantes vai enviar uma cópia daquele arquivo essencial que estava no pendrive que ele perdeu. Felizmente ele respira aliviado do outro lado da linha quando ouve que você salvou uma cópia de segurança e que em dois minutos você vai enviar por e-mail. Ufa! Ele está salvo porque você salvou o arquivo. No entanto, logo depois que ele agradece e desliga, é a sua vez de ficar desesperado, porque sentado em frente à tela você descobre que está sem internet.  Você faz de tudo. Reseta o modem. Reinicia o computador, mas a frustração só aumenta e você fica sem poder cumprir o prometido porque simplesmente acabou a internet.

Em outro dia você abastece a geladeira de cerveja, e se prepara para assar aquela carne. Tudo foi combinado com antecedência para as despesas serem rateadas no fim. Tudo no jeito quando a turma empolgada de amigos começa a chegar. É dia de jogo importante do seu time e todos estão uniformizados a caráter. Todos estão com aquela sensação de euforia e frio na barriga que é típica dessas ocasiões. Alguém ensaia um cântico de vitória e todos se comportam como se estivessem dentro do estádio até fazendo uma “ola”. Os times entram em campo e em minutos a bola rola. A tensão está no ar quando o adversário pressiona de todas as formas rondando a área no começo da partida. Então cai o sinal de TV e todos praguejam e já meio altos gritam palavrões. Passa um, dois, três minutos e muito mais tempo e o sinal não volta. Só resta correr para um bar qualquer ou escutar o jogo pelo radinho de pilhas.

Em outro momento depois de uma pescaria incrível você lota de peixes o congelador e o freezer. Numa noite qualquer de calor estúpido e muito cansado do dia estressante de trabalho você vai dormir tranquilo com o ar condicionado regulado para 22 graus. Então acontece o inesperado. No meio da madrugada você acorda de um sonho bom, todo suado, sem saber o que está acontecendo. Pensa logo se é o ar que pifou, mas em meio minuto descobre que foi a energia que caiu e passa o resto da noite lutando contra os pernilongos e torcendo para que a luz volte logo. Mas amanhece e você vai trabalhar mais cansado do que quando foi se deitar na noite anterior. E ao voltar para casa, depois de outro dia daqueles, você descobre que ainda está sem energia e que os seus ricos peixes congelados agora cheiram mal e estão podres, prontos para jogar no lixo.

O que estas três situações tem em comum? A ineficiência na prestação de serviços de suas operadoras? Talvez! Mas nem sempre é isso que acontece. Bairros inteiros sem luz, sem internet e sinal de TV são muitas vezes o resultado da ação de ladrões. Dois tipos de bandidos. Os que organizam quadrilhas especializadas nesse tipo de furto e roubam quilômetros de fiação. E os “chinelos” que atuam sozinhos para conseguir uns dez ou vinte metros de fios para vender e ter algum dinheiro para alimentar algum vício.

Ambos os tipos sabem de um terceiro tipo de bandido. Os receptadores que compram fios de cobre por um valor entre 14 e 20 reais o quilo. Assim as companhias operadoras de serviço sofrem junto com a população enormes prejuízos num problema recorrente e de solução complicada e com leis de repressão antigas e confusas. Quem é preso é logo solto e quem recepta não sofre maiores sanções em vista da legislação que não cobra procedência dos materiais que são oferecidos para as empresas recicladoras. E mesmo nos casos de prisão por flagrante as quadrilhas e os chinelos logo voltam a subir em postes com seus alicates afiados.

Por isso, algumas operadoras investem atualmente milhões de reais na substituição dos cabos de cobre por cabos de alumínio, que são muito mais baratos e que não oferecem tanto atrativo para os ladrões, já que o preço por quilo do alumínio é ridículo em comparação com o que pagam pelo cobre.

A ideia de escrever sobre este tema me ocorreu numa tarde de sábado em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Me chamou atenção ao passar por uma rua bem conhecida e movimentada daquela cidade, uma placa no portão de uma firma de reciclagem. Nela eu pude ler o letreiro que me chamou muito a atenção e que eu fotografei: “Atenção. Não compramos cabos telefônicos, Trensurb, Aessul. Não insista.”

Pensei na hora até que ponto chegam alguns! Roubar cabos de telefone e de uma hora para outra interromper a farra das redes sociais de viciados em curtir e compartilhar. Roubar cabos do trem e tirar a liberdade de ir e vir das pessoas. Roubar cabos e deixar famílias e comerciantes sem luz. Quanta chinelagem! Meu Deus! Mas como diz o letreiro eu me lembrei dos que roubam “organizadamente” centenas e até milhares de metros para ganhar muito dinheiro; e dos outros que roubam de forma “amadora” alguns poucos metros só para comprar álcool, cocaína ou crack.

São indivíduos irresponsáveis que devem ser investigados e presos por suas contravenções e os únicos que devem ser punidos de maneira exemplar? Não. Infelizmente não. Enquanto existirem os que compram coisas roubadas existirá os que roubam para vender em suas ações cada vez mais ousadas e descaradas. A responsabilidade precisa ser compartilhada. Quem recepta é até mais repreensível de quem rouba para vender. Por que só há ladrões que roubam porque há ladrões que receptam.

Assim cortam fios de cobre e nos deixam sem serviços essenciais. E do mesmo modo surrupiam nossos celulares de mil reais porque encontram gente sem caráter que compram por qualquer 50 “pila”. Assim também arrombam casas e levam nossos eletrônicos caros por que acham quem compra por menos de 100 “pila”. Assim levam nossos carros para os pátios e garagens de desmanche, neste que é um ciclo de cooperação mútua. Os camaradas que roubam por que sempre tem quem aqueles que compram.

Então, o que dizer para resumir o assunto numas poucas frases?

A proliferação de ladrões e receptadores são mais uma evidência da deterioração de valores e prova de que a sociedade humana está implodindo. Cada vez mais absurda, patética e desumana sociedade que se artificializa. Pessoas que se afastam umas das outras e já não mais se importam umas com as outras e nem com o que é certo.

E, se de fato, a firma de reciclagem do letreiro não compra cabos de cobre mesmo que insistam, então aqui encontramos um exemplo de que há ainda uns poucos que resistem no meio do caos e que merecem nosso respeito, gratidão e reconhecimento!

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