AS FASES DISTINTAS DO AMOR

AS FASES DISTINTAS DO AMOR

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Este artigo é uma sequência lógica ( ou nem tanto ) do tema explorado no último sábado: “As melhores mulheres e os melhores homens.”

Começa assim…

O primeiro amor chega cedo. É o da filha pelo pai. O do filho pela mãe. E ele é cheio de experiências incríveis. A primeira sílaba. O primeiro passo. O banho morno. O cheirinho de talco. Os brinquedos, as musiquinhas. Aquela coisa de pele. As divertidas histórias na hora de ir dormir. Uma vasta mistura de imaginação, aventura e gargalhadas; quando tudo é colorido e fantástico!

Depois tem aquele amor comedido, escondido, cheio de vergonha. É quando se olha lá perto do quadro negro aquela mulher incrível. A bela professora sorridente e comunicativa. Ela é linda e tem uma silhueta e tanto. É a platônica “primeira paixão”. Dá uma vontade de ganhar um beijo dela na bochecha e de encostar em seu corpo. Ela é mais que um tema de casa. E povoa os sonhos da criança inocente antes dela dormir.

Depois chega o tempo dos amores adolescentes. Todo dia se ama uma menina diferente e se fica todo cheio de segredinhos. É um amor atrás do outro. Sempre cheio de perguntas. Detalhes casuais e inexpressivos se transformam em grandes evidências do interesse da loira. “Por que ela me olhou daquele jeito? Por que sorriu para mim?” É uma vontade de ver o que ela está fazendo e se aproximar dela para se declarar e na hora não ter coragem. Depois de dois meses é outra; morena. Depois de mais quatro meses é uma terceira; ruiva. E tudo rola e muda em velocidades incríveis enquanto a cara começa a ficar cheia de espinhas e o jeito de andar é todo desengonçado. Até a voz muda. Simples assim.

Lá pelos 18 e 19, o rapaz já se sente o “homem feito” do pedaço. Tudo ele já sabe mais que os pais. Pensa que sabe tudo e não sabe rigorosamente nada. E já diz coisas como “você é o amor da minha vida” para a primeira que aparece. Se bobear ele já casa; e nem pára para pensar que uma vida em média chega perto dos 70, então como poderia ele assim, precipitadamente, acreditar em amor da vida antes dos 20?

Como assim, o amor da vida aos 20?

E assim muitas vezes as experiências de convivência, os relacionamentos amorosos vão se transformando em tentativas de chegar a algum lugar sem nunca chegar. E tudo na base de errar muitas vezes sem desistir de um dia quem sabe acertar. Quase uma prova de tentativas e múltiplas escolhas. De acerto e de erros. Invariavelmente muito mais erros.

E quando a experiência de vida chega já não se tem mais o mesmo vigor e nem a mesma paciência. Já se passou por tanta experiência boa e ruim. Já se viu eufórico e em êxtase absoluto algumas vezes. Mas em seguida com aquela sensação de vazio, de se sentir magoado e deprimido. É a fase da bipolaridade emocional e dos potes de sorvete. Não é que o mundo tenha ficado menos colorido e com menos possibilidades. É que a própria vida ensinou novos jeitos de pensar e ver as coisas com mais sobriedade e menos romantismo injustificado. É quando se pára para pensar duas ou até três vezes antes de tomar uma direção. Quando as coisas ficam mais claras na mente sem estar escravizado pelos hormônios imaturos da falta de sabedoria. Não se quer simplesmente ir decidindo errado para logo ali na frente se sentir péssimo de novo.

Aí é que começa a verdadeira vida adulta. O mundo passa a ter outro tamanho. O universo de pessoas interessantes e compatíveis fica mais restrito. Os conceitos de beleza verdadeira são outros. E já não são mais os contornos de um corpo a única coisa que se vê. É preciso muito mais do que bonitas formas arredondadas. Muito, muito mais do que se maquiar para tirar foto e depois da foto pronta usar filtros para maquiar a foto e ter um resultado melhor do que o rosto real ao acordar e se encarar no espelho na hora de escovar os dentes.

Com o tempo, o universo de pessoas interessantes e compatíveis fica mais restrito.

É quando chega o tempo da lista de 50 coisas que se procura em alguém para viver o resto da vida junto. O sorriso tem que ser bonito, mas precisa vir junto com um brilho intenso no olho. E como as frases deixam de ser óbvias, a pós-adolescência exige conversas minimamente inteligentes. O jeito de ouvir música também muda. Por que agora é algo muito maior do que explorar sonoridades eletrônicas. Agora é o tempo do som acústico e de entender a fundo o sentido das letras para a escolha do repertório. Ufa! A infância emocional já ficou para trás e superada enfim.

A lista é grande e tudo é importante. O que outro gosta e o que não gosta. A personalidade. O jeito que trata os idosos. O jeito que olha para as crianças. O que faz quando está sob estresse. O que gosta de fazer nas horas vagas. A capacidade de rir de si mesmo. O conceito que tem de beleza. Se o outro é capaz de desligar o celular num encontro. O jeito que se veste e se arruma. Se gosta de cinema. Se é muito conservador ou se é mais descolado. Se gosta de viajar. Se prefere serra ou praia. Se é isso ou aquilo outro…

E então um dia a lista de 50 coisas que o par perfeito precisa ter cai para 30 “exigências”. E depois de um tempo diminui para 20 e 10. E aí depois de muito se idealizar e sonhar se chega à conclusão que criar “check list” para encontrar alguém é inútil, por que gostar e se sentir bem ao lado de alguém não é como quando se vai ao supermercado e se faz um risco ao se pegar batatas, carne, papel toalha, sabão em pó.


…Gostar e se sentir bem ao lado de alguém não é como quando se vai ao supermercado e se faz um risco ao se pegar batatas, carne, papel toalha, sabão em pó.

Ter alguém do lado não é uma questão de ter 90% dos itens ticados. Amor de verdade não tem nada a ver com satisfação de expectativas e nem precisa de caneta para marcar alguma singularidade. Tem mais que ver com as percepções e é também não entender a razão daquilo ser assim como é. Por que o amor não tem rótulos, não tem descrições perfeitas. O amor entre dois é ímpar. Se um dos dois fosse diferente em algo não seria “aquele amor” e se fosse amor seria um tipo de amor diferente. Por que amar de verdade é muito mais do que se importar com roupa passada e maquiagem perfeita. É muito mais do que falar todo tempo. É ouvir, ouvir e depois falar com espontaneidade. E é também falar com espontaneidade antes de ouvir. E é nem precisar falar para ser ouvido. É ser a própria pessoa que se é; não aquela que se cria quase como que um personagem perfeito só para impressionar o outro. Um inútil exercício de ventilar aparências que em pouco tempo ficarão expostas como propaganda enganosa!


É ser a própria pessoa que se é; não aquela que se cria quase como que um personagem perfeito só para impressionar o outro.

Se então surgir na mente aquela coisa de que se é incompleto até a chegada daquela outra pessoa, a estrada que vai se abrir pela frente vai apontar novos horizontes; novas perspectivas, maior crescimento individual. E estar junto será prazeroso. Andar na chuva de mãos dadas. Casar e ir morar juntos. Assistir filmes debaixo de uma coberta. Compartilhar trechos de poesia e goles de vinho tinto. Pegar no sono sem se dar conta e acordar no outro dia enquanto o outro está dormindo com aquela cara de paz e o cabelo todo despenteado. Passar e tomar um café forte na caneca favorita. Espiar pela janela e voltar para o quarto por que está chovendo horrores e é muito bom levar café na cama para quem se gosta de verdade.

Um dia as melhores mulheres e os melhores homens percebem que a coisa é assim!

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Daniel Mendes é publicitário. Especialista em designer gráfico. Apreciador de cinema e de boa literatura. Observador cuidadoso do cotidiano. Atento às novas formas de comunicação e interação social. Cronista dos temas leves de seu tempo. Mas também explorador profundo das situações que provocam indignação e que nos induzem a fazer profunda reflexão.

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