Reta final das eleições: deepfakes ameaçam manipular o voto na última hora

Na reta final do período eleitoral, vídeos, áudios e imagens criados por inteligência artificial circulam pelas redes sociais e podem ser produzidos por qualquer pessoa. O olho humano já não basta: estudos citados pela VU, apenas 0,1% das pessoas conseguem identificar corretamente todos os deepfakes em um conjunto de conteúdos reais. O alerta é de Sebastian Stranieri, CEO da VU, que defende tecnologia, checagem de fontes e conscientização do usuário para proteger eleitores, candidatos e empresas.

Qualquer pessoa pode criar. Qualquer pessoa pode espalhar

O Pardal, aplicativo da Justiça Eleitoral, recebeu mais de 67 mil denúncias de propaganda irregular no primeiro turno, 73% a mais que em 2022, segundo o TSE. O volume reforça a necessidade de orientar o eleitor sobre como verificar o que recebe.

Ferramentas como ChatGPT e Gemini tornam simples a criação de imagens falsas, e o “ver para crer” perde o sentido. A tecnologia também avança em outras frentes: o uso de conteúdo sintético em fraudes digitais saltou 830% no Brasil entre 2024 e 2025, segundo dados da Polícia Federal, da Febraban e da VU.

“Se o conteúdo que você recebeu provoca medo, raiva ou urgência para ser compartilhado, é o momento de parar e perguntar: essa fonte é real ou é só um perfil e uma mensagem? Ali é hora de desconfiar”, diz Stranieri.

Fontes oficiais e verificação em camadas

A “dica mestra” do executivo é recorrer a quem tem responsabilidade pela informação. “Perfis oficiais de candidatos, órgãos públicos e veículos confiáveis devem ser a primeira fonte de consulta, e não um conteúdo que chega pelas redes sociais”, afirma.

A Justiça Eleitoral proíbe o uso de deepfakes nas eleições. Conteúdos muito emotivos ou bombásticos tendem a ser desinformação, e as redes costumam identificar material de IA com um rótulo. Candidatos que forem alvo desse tipo de prática devem levar o caso ao TRE, e o eleitor também pode denunciar.

Como se proteger: dicas para o eleitor

  • Não compartilhe por impulso. Mensagens que provocam medo, raiva ou pressa pedem checagem antes do reenvio.
  • Priorize fontes oficiais. Perfis de candidatos, órgãos públicos e veículos de imprensa confiáveis devem ser a primeira consulta, não um áudio recebido por WhatsApp.
  • Observe inconsistências. Em vídeos, atenção a lábios fora de sincronia e iluminação estranha no rosto.
  • Procure o rótulo de IA. As redes sociais costumam identificar esse tipo de conteúdo.
  • Teste a videochamada. Peça que a pessoa passe a mão na frente do rosto ou toque a orelha, para verificar se reage em tempo real.
  • Denuncie. Use o aplicativo Pardal, da Justiça Eleitoral, ou procure o TRE.

Confira a entrevista completa:

Pergunta: Com a popularização dos aplicativos no celular e a proximidade do pleito, como a facilidade de gerar deepfakes pode ser explorada para forjar declarações ou imagens de candidatos?

Sebastián Stranieri: Hoje qualquer pessoa tem acesso gratuito à ferramentas avançadas de IA diretamente no celular. A manipulação visual está na ponta da câmera: basta capturar uma imagem ou gravação, subir no modelo e fazer alterações com facilidade. O risco no ambiente eleitoral é que os fraudadores misturam diferentes técnicas, sobrepõem câmeras virtuais, alternam focos e usam materiais sintéticos para tentar burlar a percepção humana e os filtros de segurança, conseguindo colocar conteúdos falsos em circulação em tempo recorde.

Pergunta: Diante de vídeos ou conteúdos suspeitos que viralizam na reta final da disputa, como o eleitor pode identificar uma manipulação e não cair no golpe?

Sebastián Stranieri: A regra de ouro é nunca agir pelo impulso da emoção, porque provocar reações inflamadas, como raiva, medo ou urgência, é a base de qualquer golpe. Como o fator humano é o elo mais vulnerável, o fraudador explora o apelo emotivo para que a pessoa abaixe a guarda crítica e repasse o material sem pensar. Se um vídeo parecer excessivamente bombástico ou inacreditável, pare e cheque antes de compartilhar: procure a informação nos veículos de imprensa e verifique as redes sociais oficiais do próprio candidato para confirmar se aquela declaração realmente existiu.

Pergunta: Em transmissões ou chamadas de vídeo com suspeita de manipulação no período eleitoral, quais testes práticos o eleitor pode fazer para verificar se está diante de um conteúdo sintético?

Sebastián Stranieri: Se você receber uma ligação por vídeo e tiver dúvidas, peça para a pessoa colocar a mão no nariz ou tocar a orelha. Movimentos dessa natureza costumam quebrar a renderização do modelo gráfico e ajudam a evidenciar que a imagem está sendo manipulada.

Pergunta: Há uma tese de que a inteligência artificial apenas democratiza o acesso a golpes, sem alterar a natureza dos riscos. Qual é o real impacto dessa tecnologia no ecossistema do crime cibernético?

Sebastián Stranieri: A inteligência artificial faz diferença principalmente para os criminosos experientes. O que ela democratiza é a produção do ataque: possibilita aplicar o mesmo golpe em dezenas de idiomas com exatidão gramatical e automação de processos. A nossa maior preocupação não deve ser o ataque isolado de uma pessoa física contra outra, mas quadrilhas especializadas atuando contra bancos e instituições financeiras em grandes vazamentos de dados ou fraudes transacionais internacionais. Esse risco de grande impacto já existia sem a IA, como ocorreu anos atrás no caso em que criminosos desviaram 98 milhões de dólares de um banco na Índia. O que a IA efetivamente entrega a esses grupos é velocidade e precisão para explorar vulnerabilidades que antes exigiam equipes inteiras.

Pergunta: A máxima clássica da cibersegurança que aponta o fator humano como o elo mais fraco segue verdadeira com o avanço da IA generativa?

Sebastián Stranieri: Sim, isso não muda com o tempo nem com a evolução técnica. É como na condução de um veículo: o ponto mais fraco é o motorista, pois o carro não se equivoca sozinho. Por isso, a educação contínua é o pilar indispensável, assim como foi na consolidação do e-mail e das redes sociais. A diferença agora é a escala do impacto, que se tornou massiva em velocidade recorde. Nenhuma plataforma digital na história cresceu em base de usuários e intensidade de uso tão rápido quanto a inteligência artificial.

Pergunta: A inteligência artificial também está nas mãos dos defensores dos sistemas. Essa tecnologia serve para nivelar a disputa contra os fraudadores?

Sebastián Stranieri: Definitivamente. A IA não serve unicamente para o ataque; ela é indispensável para detectar a fraude antes que ela se consume. Os bancos utilizam inteligência artificial há anos para identificar transações anômalas em milissegundos e monitorar milhões de sinais comportamentais simultâneos, flagrando detalhes que passariam despercebidos pelo olho humano. A diferença crucial está na escala: o criminoso usa a IA para multiplicar o volume das ofensivas, enquanto nós a empregamos para escalar as camadas de proteção. Atuar do lado da segurança impõe mais desafios e um processo mais cuidadoso, é a analogia de caçar o mamute: temos de correr constantemente contra o tempo, já que os criminosos passam 100% do dia dedicados exclusivamente a procurar uma brecha.

Pergunta: Em sistemas de identificação biométrica, de que maneira os modelos de IA operam para barrar deepfakes e outros ataques visuais sintéticos?

Sebastián Stranieri: Todo sistema biométrico já nasce estruturado em inteligência artificial. Empresas especializadas desenvolvem há anos múltiplas camadas de IA para barrar fotos impressas, vídeos gravados em telas e deepfakes. O senso comum costuma acreditar que, se a visão humana não percebe a farsa, o computador tampouco perceberá, mas a tecnologia opera por outros parâmetros. Treinamos os algoritmos com informações sintéticas de ataques prévios, capacitando o modelo a identificar anomalias digitais com precisão. O desafio é contínuo porque os fraudadores mesclam abordagens, combinam geração sintética, alteram focos e sobrepõem câmeras virtuais para tentar furar os filtros. No fim das contas, a defesa hoje conta com ferramentas para responder com mais agilidade, na mesma medida em que os atacantes buscam ganhar velocidade.

Sobre a VU
A VU é uma empresa de tecnologia especializada em identidade digital, autenticação e prevenção de fraudes. Fundada em 2007, em Buenos Aires, a companhia atua em mais de 30 países e contribui para a proteção de cerca de 350 milhões de usuários ao redor do mundo. Com soluções que combinam biometria, inteligência artificial e autenticação multifator, atende atualmente setores como serviços financeiros, governo, varejo, esportes e gaming.

Fundada por Sebastián Stranieri, especialista em cibersegurança, a VU tornou-se pioneira no desenvolvimento de tecnologias de autenticação na América Latina após uma experiência pessoal envolvendo um familiar durante um processo de prova de vida. Com mais de duas décadas de experiência no setor, o executivo lidera a missão da empresa de colocar a tecnologia a serviço das pessoas, tornando a vida digital mais simples e segura. A companhia foi eleita por quatro anos consecutivos como Microsoft Partner of the Year e destacada pela Gartner entre os principais players globais de verificação de identidade.

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