Sucessão empresarial e saúde mental foram temas de debate na Expoagas

Sucessão empresarial e a formação de novas lideranças

A sucessão empresarial e a formação de novas lideranças estiveram no centro de um dos principais debates da Expoagas 2026, na tarde de terça-feira (18). O painel Agas Jovem reuniu empresários e executivos para tratar do tema “Conectando gerações”. Foram abordados os desafios da continuidade dos negócios familiares, a preparação de sucessores e a construção de empresas capazes de inovar sem perder sua essência.

Participaram do encontro o empresário Jaime Andreazza, uma das principais lideranças do varejo gaúcho; a mentora de líderes Bruna Habka, especialista em desenvolvimento de lideranças e cultura organizacional; e a diretora Comercial e de Marketing da Baly Brasil, Dayane Titon, executiva que integra uma das empresas de bebidas que mais cresceram no país nos últimos anos. A mediação foi conduzida pela presidente do Agas Jovem, Isadora Stangherlin.

Para Isadora, a sucessão começa quando alguém da família decide aprender e exige dedicação, esforço e construção de repertório. “Um dos grandes papéis da Agas Jovem é preparar os jovens para este momento”, destacou. Atualmente, o grupo reúne 240 integrantes e desenvolve iniciativas como visitas técnicas e a participação dos jovens nas empresas. Segundo ela, tradição e inovação não precisam ser escolhas opostas. “Precisamos fazer com que ambas andem juntas.” Nesse contexto, a entidade prepara um novo projeto: Imersão Legado, a preparação de uma geração de valor.

Durante o encontro, Bruna Habka compartilhou sua trajetória de retorno à empresa familiar e falou sobre os desafios emocionais envolvidos no processo sucessório. Após experiências profissionais em outras áreas, ela retornou à empresa em 2016, a convite do pai e, desde então, permaneceu na organização. Para ela, conectar gerações exige inteligência emocional e capacidade de liderança. “A sucessão é algo político. Temos que liderar pela influência”, afirmou. Bruna também destacou que o processo de sucessão não se resume à transferência de um cargo. “O bastão não se passa, ele se conquista”. Entre os principais desafios, apontou a preservação da cultura empresarial, especialmente diante do crescimento das organizações e do aumento do número de colaboradores. Para os jovens que estão entrando nos negócios, deixou uma mensagem: “Olhem com muito carinho para o fundador do negócio”.

O empresário Jaime Andreazza relatou sua experiência de construção profissional. Aos 14 anos, começou a trabalhar em uma oficina mecânica e, posteriormente, passou a atuar ao lado do pai. Quando o pai ficou doente por um pequeno período, ele precisou assumir responsabilidades no mercadinho da família, aprendendo na prática a precificar, vender e administrar o negócio. Ao falar sobre a entrada das novas gerações, defendeu critérios claros e profissionais. “Os integrantes da família ocupam um cargo como qualquer outro funcionário, assim como recebem as mesmas atribuições e os mesmos salários”, relatou sobre a orientação dada aos filhos. Segundo Andreazza, na empresa os familiares devem ser tratados igual aos colaboradores. Também ressaltou que os valores da organização são inegociáveis. Atualmente, 98% dos gerentes da companhia aprenderam e cresceram dentro da própria empresa, realidade que considera fundamental preservar.

A experiência de crescimento também esteve presente no relato de Dayane Titon, cuja empresa cresceu mais de 50 vezes nos últimos oito anos, passando de R$ 30 milhões de faturamento em 2017 para R$ 1,7 bilhão em 2025. Desde a infância, envolvida com a organização, Dayane passou por diferentes áreas até identificar sua vocação para as finanças. Ao assumir o desafio em 2017, passou a liderar uma trajetória marcada por expansão e inovação.

Para ela, inovar exige coragem, dedicação e informação, sem desconsiderar o legado construído pelas gerações anteriores. “Temos que aprender muito com as gerações que estiveram na empresa”, afirmou. Dayane também destacou a importância da inteligência emocional, de conselheiros externos e da capacidade de dar e receber feedbacks, inclusive dentro da família. De acordo com a executiva, o maior inimigo de uma sucessão bem-sucedida é o ego. “É onde as empresas mais quebram.” Como exemplo, citou uma crise de gestão vivenciada em 2017, provocada por conflitos de egos. A experiência reforçou a importância de combinar respeito ao passado, resultados, inovação e capacidade de trabalhar em conjunto para garantir a continuidade dos negócios.

Saúde Mental para Alta Performance

A palestra da quarta-feira (19), na 43ª Expoagas lotou o Teatro da Fiergs. O empresário Léo Simão falou sobre “Saúde Mental para Alta Performance”, em um encontro marcado por reflexões sobre comportamento, liderança e desenvolvimento pessoal, destacando a importância do equilíbrio emocional como elemento fundamental para alcançar melhores resultados na vida pessoal e profissional.

Ao longo da apresentação, Simão chamou a atenção para sintomas cada vez mais presentes na sociedade, como falta de foco, baixa disciplina, instabilidade emocional, relacionamentos prejudicados, fragilidade financeira, procrastinação e ansiedade. Segundo ele, esses fatores impactam diretamente a capacidade de realização e desempenho das pessoas. Simão também destacou dados relacionados à saúde mental e ao ambiente profissional. Citou um estudo associado à Harvard Business Review que aponta que o tratamento da saúde mental contribui para um aumento de 37% na conversão em vendas. Para ele, esta relação é direta. “Venda é transferência de entusiasmo. Liderar é vender”, afirmou.

Outro ponto abordado foi o avanço dos problemas relacionados à ansiedade e ao esgotamento. O empresário mencionou que um em cada dois jovens estaria vivendo uma ansiedade incapacitante e chamou atenção para o crescimento dos afastamentos por burnout. Também destacou o fenômeno do presenteísmo, quando a pessoa está fisicamente no trabalho, mas emocionalmente desconectada e com sua produtividade comprometida. “Hoje temos pessoas conectadas o tempo todo no celular, mas desconectadas com a pessoa ao lado”, refletiu.

A trajetória pessoal de Simão também foi um dos elementos abordados na palestra. Ao compartilhar momentos de dificuldade e recomeço, ele mostrou como experiências de dor podem se transformar em oportunidades de mudança. Ele contou que, em 1º de janeiro de 2015, diante de uma mudança significativa em sua vida, precisou recomeçar e construir uma nova trajetória profissional. Anos depois, em junho de 2021, enfrentou outro momento decisivo: ficou sete dias entubado em uma UTI, com 90% de comprometimento pulmonar.

A experiência o levou a aprofundar a busca pelo sentido da vida e a estudar diferentes filosofias e ferramentas de desenvolvimento pessoal. Entre as referências apresentadas está o livro Meditações, de Marco Aurélio, e os princípios do Estoicismo (filosofia praticada na Grécia Antiga), apresentado por Simão como um princípio de vida capaz de contribuir para a formação e transformação de líderes. “Eu fiquei por um ano na roda da aflição”, relatou, ao falar sobre um período marcado por ansiedade, medos paralisantes, procrastinação, melancolia e sofrimento.

Entre as ferramentas apresentadas está o conceito das “sete lentes da transformação”, desenvolvido a partir de experiências de treinamento e aplicado por Simão em seu trabalho junto às empresas. Com mais de 150 mil pessoas impactadas e atuação junto a mais de 300 organizações, o palestrante compartilhou estratégias para desenvolver foco, disciplina e capacidade de lidar com situações difíceis. Ele apresentou três caminhos que, segundo sua abordagem, podem contribuir para mudanças na atividade cerebral e no bem-estar: atividade física, oração/fé e reprogramação mental. Ele citou aumentos de fluxo no neocórtex associados a essas práticas, de 25%, 40% e 70%, respectivamente.

Mais do que técnicas isoladas, a mensagem central da palestra foi a necessidade de assumir responsabilidade sobre aquilo que está sob controle de cada indivíduo. “O maior predador do ser humano hoje em dia é o boleto”, brincou Simão, ao lembrar que problemas concretos fazem parte da vida e não podem simplesmente ser ignorados. Para ele, a capacidade de enfrentar temas difíceis, sem permitir que eles dominem a mente, é parte essencial do processo de amadurecimento. Ao falar sobre sua missão pessoal, o palestrante afirmou que pretende levar a calma da mente para mais de 10 milhões de pessoas até 2030.

SOBRE A EXPOAGAS

A Expoagas, promovida pela Agas (Associação Gaúcha de Supermercados), é a maior feira do setor supermercadista do Cone Sul e um dos principais encontros de negócios do varejo da América Latina. O evento anual reúne milhares de líderes, expositores, empresários e visitantes para fomentar a cadeia de abastecimento e a economia regional.

SOBRE A AGAS

A Associação Gaúcha de Supermercados foi fundada em 1971 e há mais de cinco décadas representa, fortalece e impulsiona o setor supermercadista do Rio Grande do Sul. Reconhecida como uma das principais entidades do varejo brasileiro, promove capacitação, representação institucional, geração de negócios e inovação para seus associados. É responsável pela organização da Expoagas, uma das maiores feiras do setor na América Latina, além de manter uma ampla agenda de eventos, cursos e programas de qualificação. Com sede própria em Porto Alegre, conta com estrutura voltada à formação profissional e ao apoio técnico aos associados, por meio de departamentos especializados. Atualmente, a entidade é presidida pelo empresário Lindonor Peruzzo Jr, da Rede de Supermercados Peruzzo, com matriz em Bagé.

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