A CDL Porto Alegre realizou nesta quinta-feira (5), no Teatro CIEE-RS Banrisul, o Pós-NRF 2026, reunindo empresários e lideranças para debater as principais transformações que já impactam o varejo no Rio Grande do Sul. O encontro apresentou um resumo estratégico da NRF 2026: Retail’s Big Show — maior evento mundial do setor, realizado em janeiro, em Nova York — adaptado à realidade do varejo gaúcho.
A programação contou com a participação do VP da Pmweb, Guto Rocha; da curadora da FFX, Natália Schifino; do sócio da FFX e ex-presidente da CDL POA, Guga Schifino; e do coordenador estadual de varejo do Sebrae-RS, Fabiano Zortéa. A partir dos principais debates da feira, foi destacado o conceito “Próximo Agora”, reforçando que inovação deixou de ser planejamento futuro e passou a ser execução imediata.
Ao abrir o evento, o presidente da CDL Porto Alegre, Carlos Klein, ressaltou a responsabilidade de dar continuidade à trajetória de uma entidade que completou 65 anos no ano passado, consolidando-se como protagonista na defesa e no desenvolvimento do varejo gaúcho. “Assumimos a presidência após seis décadas de uma história construída com diálogo, representatividade e entregas concretas ao comércio do Rio Grande do Sul. Isso amplia nossa responsabilidade de preparar o setor para o que já está acontecendo”, afirmou.
Klein destacou que o varejo do futuro já é o presente e que ele será cada vez mais humano e próximo do cliente. “Precisamos resgatar a lógica do relacionamento e da confiança que marcava o comércio no tempo dos nossos avós, agora somada às tecnologias que sustentam a infraestrutura de uma população hiperconectada. A tecnologia dá potência, mas o valor continua nas pessoas”, disse. Segundo ele, confiança e propósito são os principais ativos das marcas na atualidade. “O pequeno varejo entende isso de forma natural, porque conhece o cliente pelo nome, conhece o bairro e sabe exatamente quais necessidades precisa atender.” O presidente reforçou que o Pós-NRF foi estruturado com foco especial nos micros, pequenos e médios empresários, reunindo vozes plurais para traduzir tendências globais em aplicações práticas para a realidade local.
O VP da Pmweb, Guto Rocha, apresentou uma análise do cenário internacional e afirmou que, hoje, muitas das maiores inovações do varejo vêm da China, enquanto o mercado norte-americano, em alguns casos, perdeu humanidade em sua operação. Citou como exemplo o fechamento do Saks da Quinta Avenida, rede de lojas de departamento, e movimentos de retração no varejo físico da Amazon. Para ele, as lojas que prosperam são aquelas que buscam permanência e identificação com o cliente, investindo em clubes de membros, menos “fast” e mais “fashion”, e criando ambientes com sofás e áreas de convivência que transformam a loja em espaço de socialização. Guto destacou que a Inteligência Artificial já atua como agente de recomendação e que as marcas precisam ser encontráveis e recomendáveis por essas ferramentas. “A boa IA é invisível. A ruim é inesquecível”, afirmou, ao explicar que erros grosseiros comprometem a confiança. Segundo ele, a loja não morreu, apenas mudou de papel, e o desafio do varejo é gerar mais resultado com os mesmos clientes, valorizando o talento humano. Para Rocha, o Brasil talvez tenha mais a ensinar do que a aprender, mas é necessária coragem para fazer o que precisa ser feito.
Natália Schifino, curadora da FFX e representante da geração Z, apresentou conceitos centrais para os lojistas. O primeiro foi a transição da atenção para a confiança, destacando que o humano é o novo luxo em um ambiente cada vez mais automatizado. A relevância das marcas está na experiência e na construção de vínculo. Outro ponto foi a lógica de “encontrar” e não apenas “buscar”: há o cliente que pesquisa ativamente e aquele que descobre produtos sem intenção prévia. Natália também salientou a economia do “ao vivo”, com o crescimento das vendas em live no mercado americano e a importância de estar presente tanto no feed quanto na vida real. O conceito de “terceiro lugar” foi apresentado como oportunidade estratégica: a loja pode ser o espaço de convivência depois da casa e do trabalho, fortalecendo recorrência e pertencimento.
Sócio da FFX e ex-presidente da CDL POA, Guga Schifino reforçou a relevância histórica da Entidade e comparou o momento atual ao surgimento da internet na década de noventa, afirmando que vivemos uma transformação estrutural que exige coragem. Ele definiu a IA como um agente que indica e recomenda, mas não cria, ressaltando que a criatividade é hoje o verdadeiro sistema operacional do varejo. Segundo ele, a decisão de compra nasce no sentimento antes da razão e cuidar do outro é o papel central do comércio. Guga reiterou a importância da experiência como elo de conexão, da curadoria como diferencial e da comunidade como ativo estratégico, onde reputação e confiança são os maiores patrimônios. Para ele, a IA pode assumir papel de liderança operacional, mas depende do humano para gerar valor criativo.
Fabiano Zortéa, coordenador estadual de varejo do Sebrae-RS, ratificou o conceito da loja como terceiro lugar e destacou o papel do varejo no desenvolvimento da saúde social. Segundo ele, a geração Alpha espera um convite para sair de casa e deseja experiências fora do feed. Nesse contexto, o varejo físico pode atuar como convite à desaceleração, em um movimento de “slow retail”. Zortéa comparou a capacidade sensorial do varejo físico — que explora os cinco sentidos — com o digital, que opera principalmente com visão e audição. Para ele, o cliente não precisa mais ir à loja, ele precisa querer ir. A Inteligência Artificial pode ser aplicada como infraestrutura para compreender comportamento de consumo e melhorar atendimento, mas a presença física deve ser celebrada. O consumidor que entra na loja deve ser reconhecido e recebido com atenção e um sorriso. Comunidade e pertencimento, segundo ele, são ativos imprescindíveis, e a conexão cultural pode ser potencializada em redes como o TikTok. “O ponto de conexão entre o físico e o digital é o coração da marca. Repertório é o que se leva na bagagem, porque decidimos por emoção. Venda é vínculo”, concluiu.
Ao consolidar os principais insights da NRF 2026 para o contexto local, a CDL Porto Alegre reafirma seu papel como articuladora do desenvolvimento do varejo no Estado, conectando tendências globais às demandas concretas do empresário gaúcho. O recado do Pós-NRF 2026 foi claro: o futuro do varejo já começou — e ele será construído por quem decidir agir agora.


