Com temperaturas abaixo dos 10 °C, especialistas apontam que mudanças no projeto das casas podem reduzir mofo, melhorar o conforto térmico e prevenir doenças respiratórias
A chegada das ondas de frio no Rio Grande do Sul, com temperaturas já abaixo dos 10 °C, vem acompanhada do aumento nos atendimentos por doenças respiratórias nas emergências do Estado. Dados recentes da Secretaria Estadual da Saúde apontam crescimento nas internações por síndromes respiratórias agudas, especialmente entre crianças e idosos, um movimento que se repete a cada inverno e pressiona o sistema de saúde. O cenário, recorrente nos invernos gaúchos, tem relação direta não apenas com o clima, mas também com as condições das edificações.
Ambientes frios, úmidos e com pouca ventilação favorecem a proliferação de mofo e fungos, associados a problemas como asma e rinite. Na Região Sul, o problema se intensifica pela combinação climática típica: frio externo, alta umidade do ar e ambientes internos aquecidos. Esse contraste favorece a chamada umidade por condensação, quando o vapor de água presente no ar se transforma em líquido ao entrar em contato com superfícies frias das paredes. Esse fenômeno é frequentemente confundido com infiltração, o que leva a soluções superficiais que não resolvem a causa do problema. Como resultado, as manchas e o mofo reaparecem a cada inverno.
A boa notícia é que mudanças relativamente simples na arquitetura e na escolha de materiais podem transformar esse cenário. Estratégias como ventilação cruzada, uso de exaustores em áreas úmidas, uso de tintas térmicas ajudam a reduzir a umidade estrutural e melhorar o desempenho térmico das edificações.
Hoje, o mercado também conta com tecnologias mais avançadas. Softwares de simulação higrotérmica permitem prever o comportamento da umidade e da temperatura dentro das paredes ainda na fase de projeto. Já soluções construtivas como sistemas de isolamento térmico pelo exterior, como o EIFS (Exterior Insulation Finish Systems), atuam diretamente na causa do problema ao manter a estrutura da parede aquecida e afastar o ponto de condensação.
“Quando controlamos temperatura e umidade, melhoramos diretamente a qualidade de vida. Ambientes mais estáveis reduzem o mofo, aumentam o conforto e impactam positivamente a saúde, especialmente em regiões com grande variação climática”, afirma a arquiteta Caroline Ghessi, da Drystore.
Um ponto de atenção recente é o uso de EPS (poliestireno expandido/isopor) pelo lado interno das paredes, prática que viralizou nas redes sociais. Apesar de eliminar o problema visível no curto prazo, a solução pode agravar a situação estrutural. Ao isolar por dentro, o ponto de condensação se desloca para dentro da parede, criando umidade oculta entre o EPS e a alvenaria. Isso favorece mofo invisível, degradação dos materiais e até o agravamento do problema ao longo do tempo, incluindo problemas com o vizinho.
“É uma solução que mascara o problema. Na superfície, a parede parece seca, mas a umidade continua agindo internamente, o que pode gerar danos maiores e riscos à saúde”, alerta Caroline.
Arquitetura de desempenho
A arquitetura de desempenho, baseada na norma ABNT NBR 15575, propõe um olhar sobre a construção civil, focado no conforto, na durabilidade e na eficiência das edificações. Depois de mais de uma década de sua criação, ela não acompanhou a evolução das soluções e não trata de problemas como a condensação de umidade.
“A Arquitetura de desempenho precisa levar em consideração, além das normas nacionais, os estudos internacionais publicados para ser proativo e realmente atender as necessidades dos usuários das construções e investidores”, reforça a arquiteta Caroline Ghessi.
Para o engenheiro Fábio Ghessi, o acompanhamento técnico é essencial. “O desempenho começa no projeto. Quando pensamos na edificação como um sistema integrado, conseguimos entregar mais conforto, eficiência e saúde para o usuário. Ter especialistas durante o projeto e a obra garante que as soluções sejam aplicadas corretamente e que o resultado final realmente entregue desempenho. Isso reduz custos futuros e melhora a qualidade de vida de quem ocupa o espaço”, afirma.
Fatores como orientação solar, ventilação e até a cor da fachada influenciam diretamente na temperatura interna. Tons claros, por exemplo, ajudam a reduzir o aquecimento, enquanto soluções como isolamento contínuo e fachadas ventiladas contribuem para ambientes mais equilibrados.







