Opinião – O RS envelheceu antes de estar pronto para essa nova realidade – Por Felipe Vieira

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O Rio Grande do Sul envelheceu. E rápido.

O problema é que as cidades, os serviços públicos, os modelos de moradia e até a maneira como a sociedade enxerga a velhice não avançaram na mesma velocidade.

O tamanho dessa mudança aparece nos números. O Censo de 2022 do IBGE mostrou que 20,2% da população gaúcha já tem 60 anos ou mais. São aproximadamente 2,19 milhões de pessoas. É a maior proporção entre os Estados brasileiros. No Rio Grande do Sul, os idosos já são mais numerosos do que as crianças de até 14 anos.

Não se trata, portanto, de uma transformação que ainda vai acontecer. Ela já aconteceu.

Foi a partir dessa realidade que gestores, médicos, especialistas em envelhecimento e profissionais de outras áreas se reuniram em Porto Alegre no 1º Fórum de Longevidade, realizado durante a Health Meeting Brasil.

A discussão foi muito além da saúde. Envelhecer envolve também onde morar, como circular pela cidade, ter acesso a serviços, manter autonomia, encontrar outras pessoas e continuar fazendo parte da vida da comunidade.

Há uma boa notícia na origem de tudo isso: estamos vivendo mais. O desafio agora é fazer com que esses anos adicionais sejam vividos com qualidade.

O geriatra Virgílio Olsen chamou atenção para um ponto que muitas vezes fica esquecido. A maneira como alguém chega à velhice não começa a ser construída aos 60 ou 70 anos. Ela é consequência de uma vida inteira.

Renda, escolaridade, segurança, condições de moradia e acesso à saúde pesam nessa trajetória.

“A idade cronológica é apenas um número; ela informa algo, mas não conta a história inteira. A longevidade é individual, mas as condições para vivê-la são coletivas”, afirmou.

Porto Alegre ajuda a mostrar a velocidade dessa transformação.

Segundo o secretário municipal da Saúde, Fernando Ritter, a capital tinha 128 mil moradores com mais de 60 anos em 1991. Em 2010, já eram 211 mil. Em 2023, chegaram a 319 mil.

Hoje, mais de 20% dos moradores da cidade pertencem a essa faixa etária. Cerca de 5% da população já passou dos 80 anos.

“Estamos passando em três décadas por uma transformação demográfica que muitos países europeus levaram um século para vivenciar”, observou Ritter.

Isso muda também a cidade.

Uma calçada ruim deixa de ser apenas uma calçada ruim. Pode significar a impossibilidade de uma pessoa sair sozinha de casa. Um ônibus pouco acessível, um comércio distante ou a falta de áreas de convivência passam a interferir diretamente na autonomia de uma população que cresce todos os anos.

O arquiteto Ronaldo Rezende defendeu durante o encontro cidades onde seja possível resolver boa parte da vida cotidiana perto de casa.

“Cidades inteligentes precisam garantir caminhabilidade e convivência”, resumiu.

E talvez esteja justamente na convivência um dos maiores desafios dessa nova sociedade.

Viver mais não significa necessariamente viver melhor.

A solidão e o isolamento social passaram a fazer parte das preocupações mundiais relacionadas ao envelhecimento. A própria Organização Mundial da Saúde vem chamando atenção para os efeitos dessa desconexão sobre a saúde e o bem-estar.

Luciano Zuffo, sócio-fundador do São Pietro Sênior, destacou que ainda existe uma associação quase automática entre envelhecimento e doença.

“Quando falamos em envelhecimento, a primeira associação que aparece é com a doença. Enxergamos a pessoa idosa como alguém doente e não como alguém que quer continuar vivendo. Precisamos quebrar esse paradigma”, afirmou.

É uma mudança de olhar.

Uma população que envelhece não precisa apenas de hospitais, consultas e medicamentos. Precisa de praças, calçadas seguras, transporte, moradia adequada, atividades, amigos, vínculos e lugares onde as pessoas possam simplesmente se encontrar.

“Precisamos de espaços onde as pessoas convivam, movimentem-se e continuem participando da vida em comunidade. O convívio social é um dos fatores mais importantes para a qualidade de vida ao longo do envelhecimento”, disse Zuffo.

Entre as ideias discutidas no fórum está a criação de um Comitê Estadual da Longevidade, reunindo poder público, especialistas e representantes da sociedade civil.

A proposta tenta responder a uma constatação que os números já deixaram evidente.

O Rio Grande do Sul chegou mais cedo do que grande parte do país a uma realidade que, cedo ou tarde, atingirá praticamente todo o Brasil.

Agora precisa correr atrás do tempo.

Porque a grande questão já não é apenas quantos anos conseguiremos viver.

É como queremos viver esses anos.

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