Bola murcha

Desde 1965, quando desembarquei em Porto Alegre de um trem de passageiros, que iniciou sua viagem em Santana do Livramento, assisto com regularidade jogos do Gauchão. E raras vezes vi nosso campeonato terminar sem a disputa final entre Internacional e Grêmio.Tive o desprazer, aliás, de ver o Grêmio empilhar títulos nos anos sessenta, até 1969 mais precisamente, quando o Inter recuperou a faixa de campeão com um time comandado pelo técnico Daltro Menezes e a participação de um conterrâneo meu, o Dorinho. A década de setenta foi marcada por títulos sucessivos do Internacional, menos nos anos de 1977, 1979 e 1980. Desde então o desfecho previsível sempre aconteceu, a exceção de anos singulares com a imposição do melhor futebol de Juventude e Caxias, campeões, respectivamente, em 1998 e 2.000. Neste século, que já nos possibilitou ver mais 15 campeonatos gaúchos, a hegemonia de Internacional e Grêmio se manteve inalterada. Mas não há cem por cento de garantia de que 2.016 nos reserve um desfecho idêntico aos de anos anteriores, levando-se em conta o desempenho do Juventude e do São José. Mesmo com a derrota do Juventude para o Internacional por 1 a 0, no Alfredo Jaconi, que lhe retirou o orgulho passageiro de uma invencibilidade de seis partidas, o representante da Serra pode se recuperar e chegar à final do Gauchão em busca do titulo. O mesmo se pode dizer em relação ao São José. Mas tudo indica que o protagonismo da dupla poderosa da capital vai continuar ocorrendo sem uma invasão dos seus domínios por outro adversário. Colorados e gremistas querem que isso aconteça, mas não há duvida de que haveria mais interesse de parte do público por uma competição com cinco ou seis equipes em condições de disputarem o titulo de igual para igual. Os fatos, porém, demonstram o contrário. Internacional e Grêmio navegam em águas mansas na disputa do Gauchão. Enquanto isso, a maioria dos clubes de futebol do interior sofrem com o seu apequenamento em decorrência da crônica falta de dinheiro para formar equipes fortes. É improvável que a situação mude sem a participação das comunidades realmente interessadas em apoiar e investir nos seus clubes. Aí todos nós, que valorizamos o Gauchão, corremos o risco de ficar falando sozinhos. Vão crescer na parada os derrotistas que querem extinguí-lo ou pelo menos diminuir a participação da dupla em jogos do seu calendário. Não estou com essa turma, mas se levarmos em conta a situação geral do Rio Grande do Sul, que certamente preocupa até o general Bento Gonçalves da Silva em seu túmulo, nossa bola está mesmo cada vez mais murcha.

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