Expansão do turismo de fé é impulsionado por iniciativas como Cristo Protetor e pelos 400 anos das Missões Jesuíticas, como bom momento para agências receptivas
Nesta Semana Santa, o Rio Grande do Sul tem motivos de sobra para celebrar seu crescente protagonismo no turismo religioso, com roteiros que combinam espiritualidade, cultura e história. Entre caminhos de peregrinação, santuários, monumentos e as emblemáticas ruínas missioneiras, o segmento vem ampliando sua relevância no cenário turístico estadual e nacional.
Em 2026, esse movimento ganha ainda mais força com as celebrações dos 400 anos das Missões, que marca a chegada dos primeiros padres jesuítas ao território gaúcho. A data comemorativa, aliada a empreendimentos do setor, tendências de comportamento dos turistas (que buscam mais experiências imersivas voltadas ao bem-estar e transformação pessoal) e incentivos do governo e entidades, vem impulsionando a promoção dos destinos gaúchos e ampliando as oportunidades de negócios para agentes de viagens receptivos.
400 anos das Missões e novos empreendimentos alavancam setor
Este ano é celebrada a chegada da primeira redução jesuítica no RS, ocorrida em 1626 em São Nicolau (RS), que deu início ao que seria depois conhecido como os Sete Povos das Missões. Para marcar a data, uma série de ações de promoção do destino estão sendo executadas, buscando transformar o patrimônio histórico em vetor de desenvolvimento econômico.
Um dos projetos conduzidos foi um famtour – roteiro de familiarização de destino – promovido pela Secretaria da Cultura (Sedac), em parceria com a Fundação dos Municípios das Missões (Funmissões). A execução é da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Rio Grande do Sul (ABAV-RS), com apoio da Secretaria de Turismo (Setur).
O famtour ocorreu de 23 a 26 de março e contou com 23 participantes, entre agentes de viagens de diferentes estados do Brasil e jornalistas, que percorreram ao todo 9 cidades (Santo Ângelo, Entre-Ijuís, Caibaté, São Miguel das Missões, São Nicolau, Roque Gonzales, Porto Xavier, Cerro Largo e Guarani das Missões) em uma verdadeira imersão às raízes missioneiras, conhecendo todo o potencial da região, especialmente dentro do turismo religioso.
Além disso, empreendimentos no segmento também ajudam a consolidar novos destinos, como o exemplo do Cristo Protetor no município de Encantado, que já atraiu centenas de visitantes desde sua inauguração, em 2021. O sucesso da iniciativa serviu de inspiração para outras cidades apostarem em monumentos de devoção. Empresários de Roca Sales pretendem construir uma estrutura em forma de Arca de Noé , como forma de entrar no circuito turístico religioso e ao mesmo tempo simbolizar a superação e reconstrução da cidade após as enchentes de 2024. Já a cidade de Anta Gorda projeta a construção da Mãe Protetora, um monumento em homenagem à Nossa Senhora de Lourdes que poderá superar em altura o Cristo Protetor.
Para Paulo Hoffmeister, diretor da agência Unitur , especialista em turismo religioso, “estes investimentos têm atraído muitos turistas para a região. Isso é positivo para o crescimento do turismo religioso e, consequentemente, para a economia do Estado”.
O diretor da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Rio Grande do Sul (ABAV-RS) e gestor da agência Galápagos Tour, Paulo Gusmão reforça a percepção de que o turismo religioso vem crescendo de forma consistente no Estado e que regiões como as do Vale do Taquari e das Missões Jesuíticas já apresentam uma demanda bastante significativa. “Esses destinos reúnem não apenas infraestrutura adequada, mas também um forte valor cultural e espiritual, o que os posiciona como referências no segmento dentro do estado”, diz.
“ O Cristo Protetor de Encantado vem se consolidando como um dos principais atrativos religiosos do Brasil, atraindo visitantes de diversas regiões. Já nas Missões, o patrimônio histórico e espiritual, com ênfase no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, reconhecido pela UNESCO, fortalece o turismo cultural e de fé”, complementa Gusmão.
Turistas buscam mais imersão e significado
Estes passeios e destinos não reúnem apenas fiéis e grupos religiosos, mas sim pessoas que valorizam a vida, gostam de enriquecer seu conhecimento e de vivenciar momentos de unidade e espiritualidade. Hoffmeister conta que os roteiros cada vez mais abraçam experiências sensoriais e imersivas, para atender a demanda deste perfil de turista: “ Nos passeios organizados pela nossa agência em homenagem à vinda dos jesuítas ao Brasil, oferecemos viagens com visitas agendadas e acompanhadas por guias locais e missionários indígenas, proporcionando um turismo de integração social e cultural”.
Gusmão reafirma que “ o turista busca cada vez mais vivências que envolvam significado, espiritualidade e conexão com a história. Para o setor, isso representa uma grande oportunidade de desenvolvimento regional, geração de renda e valorização do patrimônio local”.
Oportunidades e desafios para a ampliação do setor
Ainda que o turismo voltado para autoconhecimento, religiosidade e espiritualidade venha crescendo e se destacando, existem oportunidades e desafios a serem superados para que o segmento siga se consolidando de forma estruturada. Roteiros integrados entre destinos, por exemplo, são algumas das apostas para ampliar o potencial turístico local. Como exemplo, Gusmão destaca o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha. “ O destino já possui grande relevância nacional, especialmente durante as romarias, e tem potencial para complementar os roteiros no Vale do Taquari e na região das Missões Jesuíticas, ampliando a oferta de experiências no turismo histórico-religioso e fortalecendo ainda mais o produto no estado”.
Ele também pontua que os principais desafios ainda estão concentrados na hotelaria, que oferece um número limitado de leitos com padrão de qualidade adequado. Além disso, há carência de estrutura em alguns destinos e de profissionais devidamente preparados para atender a essa demanda crescente. “ É fundamental avançar na qualificação dos serviços, na ampliação da capacidade hoteleira e na capacitação da mão de obra. Esses pontos são essenciais para sustentar o crescimento do turismo com qualidade e consistência”, completa o diretor da ABAV-RS.


