FORMAÇÃO DE LÍDERES E FUTURO | Por Germano Rigotto

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Em meu último artigo, refleti sobre a carência de líderes como uma causa e consequência da grave crise que vivemos no Brasil. Apontei o caso específico da política, mas ressaltei que esse problema está em todas as áreas da vida social. Disse que é um assunto pouco abordado, desproporcionalmente à importância que possui. E terminei procurando mostrar que quadros com capacidade de liderança não nascem de geração espontânea, dependendo de estímulo e formação. É nesse ponto que faço questão de avançar.

Essa preocupação está desde há muito na história das pesquisas da humanidade. Já Platão investigava sobre isso ao falar da adequada educação e treinamento dos líderes políticos, assim como aconteceu com muitos filósofos que tentaram desvendar mais profundamente essa temática. Trata-se de uma área de conhecimento que ainda continua aberta para as investigações acadêmicas, mas a maioria dos estudos migrou do aspecto natural e inato da liderança para a ideia de que esse atributo pode ser desenvolvido em qualquer pessoa.

De fato, a vocação para o comando e a inspiração se revela em diferentes personalidades, do mais tímido ao mais saliente, do mais melancólico ao mais sanguíneo, do mais diplomático ao mais polêmico. Os grandes nomes da humanidade mostram exatamente isto: não existe fórmula pronta, e essa é a parte mais bonita dos aspectos que envolvem o estudo da liderança. Pode haver que tenha mais tendência, mas todos somos líderes em potencial.

Nenhuma qualidade pessoal, todavia, mesmo no caso de próceres inatos, é capaz de resistir a um ambiente hostil a ela. É por isso que o país precisa avançar na cultura de prestigiar e preparar pessoas para essas habilidades. Há quem não deseja isso para si, o que também é respeitável. Mas há tantos outros que apenas não encontraram ferramentas para potencializar a vontade de dar mais de si em favor da organização a que pertence ou da sociedade como um todo.

Nações mais desenvolvidas já se preocupam há mais tempo com essa dinâmica. No Brasil, os programas de treinamento e desenvolvimento em liderança chegaram com mais força nas últimas décadas. Estão majoritariamente focados no setor comercial e empresarial. Marcas que cuidaram disso conseguiram, além de melhorar seus resultados, estabelecer um processo mais seguro de sucessão e perenidade.

Isso é sem dúvida positivo, mas a abordagem precisa ser ampliada no conteúdo, abrindo mais espaço para a dinâmica do propósito social. Isto é, além de gerar resultados objetivos ou até mesmo financeiros em uma organização, é preciso cultivar a ideia do líder completo, com visão de sustentabilidade, cidadania e participação comunitária. Então, mesmo dentro das empresas e da ideia de um comandante mais pragmático, é preciso incutir a perspectiva da vida em sociedade. Afinal, se líder é aquele com capacidade de influenciar, essa promoção para a responsabilidade deve estar presente em todos os ambientes. Caso contrário, prospera o mero individualismo egoísta.

A dinâmica da formação de líderes precisa também chegar a mais setores, especialmente na política. Como se disse acima, o meio corporativo é o que mais aposta e investe nisso, normalmente com capital próprio. Já as agremiações partidárias possuem verba pública específica para tal finalidade, proveniente do fundo partidário – que sustenta as fundações de estudos políticos de todas as legendas. Não é preciso muita análise para constatar que esse investimento não está gerando mudanças significativas.

O baixo desenvolvimento de lideranças não consegue romper a barreira do continuísmo imposta, muitas vezes, pela supremacia de oligarquias regionais, familiares e financeiras que se impõem na política. Os protestos de rua, que surgiram nos últimos anos, geraram um movimento disruptivo. Muitos quadros jovens surgiram quase que a fórceps, enfrentando toda espécie de status quo das corporações partidárias. Isso é positivo, mas é preciso observar se terão capacidade construtiva, para além da boa crítica que souberam formular.

O problema não é exclusivamente dos ambientes partidários. Veja-se que também as universidades, as igrejas, os sindicatos, as organizações profissionais, a imprensa, as carreiras públicas, e mesmo as federações empresariais, dentre outros segmentos, não têm conseguido despertar figuras de proa. Temos excelentes professores, jornalistas, advogados, médicos, que cumprem com pioneirismo suas atividades específicas, mas poucos líderes com esse olhar social de que falei. Mais do que profissionais, precisamos de figuras inspiradoras.

Trata-se, portanto, de uma patologia de ordem cultural, que mostra o divórcio do país com essa tarefa de descobrir e formar talentos para a liderança. É uma lacuna, como procurei mostrar, de conteúdo e de forma. Falta-nos compreender de maneira mais abrangente o papel do líder e preparar pessoas para isso. Se os partidos políticos desejarem efetivamente recuperar o protagonismo e o significado na sociedade, está aí um bom caminho para começar – ou recomeçar. O cultivo e a formação de lideranças nos legará uma nação com mais perspectiva de futuro.

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