Compreendendo o incompreensível | Por Fernando Lucchese

O Brasil visto pela minha geração acima dos 60 anos é um país sem futuro. Meu pai tinha certamente uma reserva de esperança muito maior. As minhas estão reduzidas a quase nada. Não temos futuro, o que lamento profundamente ao olhar para meus netos e imaginar a vida que terão.

“Mas, o que é isso, Lucchese? Pessimista, agora? Sempre teu otimismo foi contagiante. Logo tu que nunca paraste de produzir, de te reinventar, de inovar!”

Verdade. Logo eu. Minha filosofia de vida foi resumida em uma frase: “Sempre construir estádios para depois jogar neles.” Explico: este é um país que não está pronto em praticamente nenhuma área de atuação. Por isso, bons jogadores que pretendam simplesmente exercer suas habilidades sem construir, são encaminhados naturalmente ao insucesso ou à migração para um país desenvolvido onde tudo esteja pronto. Aqui para chegar ao sucesso profissional temos que, em primeiro lugar, construir nossa área de atuação para depois exercer nossa habilidade. Jogar em estádios prontos é um desafio muito menor, mas com resultados duvidosos.

Porque estou pessimista? Pela simples observação da nossa sociedade pacata e resignada e dos governantes que a dirigem. O SUS “uma estrutura quase perfeita”, durante 25 anos tentou cumprir a constituição que no seu artigo 171 diz que saúde é um dever do Estado e um direito do cidadão. Um quarto de século depois estamos engessados pela falta de recursos e de gestão que produziram resultados desastrosos para o atendimento da população. Ontem mesmo uma jovem senhora da grande Porto Alegre foi chamada para um exame, cinco anos após sua consulta para tratar sua infertilidade. Mas a natureza já resolvera produzindo dois filhos saudáveis neste período de espera do exame que lhe daria chances de procriar. Este sistema está e estará engessado porque qualquer mudança depende de alteração constitucional e os senhores deputados que se elegem no sistema atual não arriscarão sua criatividade e competência gerando um sistema melhor.

A Previdência Social tem o mesmo caminho. Está engessada por uma lei de 60 anos quando nossa sobrevida média era de 50 anos. Agora vivemos mais em torno de 75 anos, ou seja, os recursos disponíveis se esgotam rapidamente. De novo o Congresso dificilmente vai correr o risco eleitoral de executar as transformações necessárias para a sobrevida saudável das futuras gerações. Porque a próxima eleição está aí, e com o sistema anterior continuarão se reelegendo, mesmo que tudo se torne inviável no futuro próximo. O imediatismo brasileiro que não permite planejar o país do futuro é a fonte de todas as minhas insatisfações.

Por isso, após 45 anos de atividade incessante tentando construir, só posso pedir desculpas aos meus netos Felipe e Mateo por não ter conseguido.

É o que resta para nossa geração de sexagenários.

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